Nelson Mandela e a derrota do regime de Apartheid

Tal como Agostinho Neto, Amilcar Cabral e Samora Machel, Nelson Mandela nunca aceitou renegar publicamente a luta de libertação na África do Sul para receber em troca a liberdade. Uma oportunidade que, em 1985, o regime de Apartheid lhe ofereceu. Porém, Mandela não traiu seus ideais e disso poucos se lembram disso.

Achille Lollo (ROMA) — Em novembro de 1976, Joe Slovo, se encontrou com os primeiros militantes sul-africanos do ANC que estávamos treinando no campo da Funda, a 30 Km de Luanda, capital da República Popular de Angola. Um encontro que, evidentemente, por motivos de segurança não foi veiculado, inclusive por que Joe Slovo estava na lista dos “comunistas que deviam ser eliminados” – tal como aconteceu em Maputo com sua mulher Ruth First. Assim, no campo de treino da Funda ficou fortalecida a decisão política do Estado Major do  Umkhonto we Sizwe (braço armado do ANC) em aproveitar a recém libertação de Angola para começar a treinar em moldes de guerrilha organizada os militantes que deviam fugir d África do Sul. Naquela reunião, Joe Slovo lembrou aos jovens aspirantes guerrilheiros – alguns com apenas 16 ou 17 anos – que eles “…estavam em Angola para trilhar o caminho que o camarada Nelson Mandela havia iniciado logo após o massacre de Sharperville em 1960 – e finalizando sua intervenção pedia de lembrar que – …. a palavra de ordem era lutar, lutar, e nunca para de lutar até acabar com o regime de Apartheid...”.

Hoje, somente três qüinquagenários daquele batalhão de 115 aspirantes guerrilheiros, podem lembrar que cumpriram com a palavra d’ordem do MK (Umkhonto we Sizwe) e com o compromisso político que assumiram com Nelson Mandela para derrotar o Apartheid e criar a nação sul-africana.

Na realidade, esse compromisso sofreu dois desdobramentos. Um de âmbito internacional e outro em nível nacional que condicionou o processo intentado contra o Apartheid, delimitando, assim, a construção da nação sul-africana tal como Mandela havia teorizado.

Sem dúvida a sabotagem à central do Sasol, realizada por um grupo especial do MK (Umkhonto we Sizwe, onde o regime de Apartheid estava testando a tecnologia para poder sobreviver ao embargo petrolífero e, a seguir, a grande batalha em Kuito Canavale, no sul de Angola, onde os batalhões das FAPLA (Exército angolano) e as unidades do corpo expedicionário cubano derrotaram o exército sul-africano, foi o primeiro golpe mortal que o Apartheid sofreu.

O segundo foram as inúmeras manifestações que aconteceram em todo o território da África do Sul, com o objetivo de querer mesmo derrubar o regime, mesmo se naquele momento não havia armas e munições para o fazer. De fato, o MK (Umkhonto we Sizwe) e o PAC haviam muito bem organizador a rebelião em termos políticos nos subúrbios das grandes cidades, mas não haviam conseguido criar os “territórios libertados”, a partir do qual promover o cerco militar ás cidades. Pois, este era o velho projeto político-militar que o Estado Major do MK (Umkhonto we Sizwe), formado por Nelson Mandela, Joe Slovo e Walter Sisulu, não conseguiu materializar, porque a força dos batalhões de contra-insurgência do exército sul-africano, as unidades de rastreamento do serviço secreto, os grupos especiais da policia territorial conseguiram criar uma cortina ao redor das fronteiras nacionais e regionais. Poucos, muitos poucos conseguiram furar essas linhas de defesa, que, porém, se tornaram obsoletas quando a rebelião popular explodiu em todos os perímetros urbanos de uma forma incontrolável, apesar dos mortos, dos feridos e das prisões.

As lutas e as negociações

O presidente sul-africano Frederik Willen de Klerk, aos 11 de fevereiro de 1990, determinou a libertação de todos os presos políticos começando a negociar o futuro do país com Nelson Mandela. Uma negociação que iniciou por que a evolução da conjuntura sul-africana e a determinação política dos 9 países da África Austral  (Angola, Moçambique, Zimbábue, Tanzânia, Zâmbia, Botsuana, Lesotho, Suazilândia e Malaui) obrigou os estrategistas do capitalismo mundial a sacrificar o regime do Apartheid para garantir a manutenção na África do Sul de um sistema de industrialização mineira, que é um dos mais rico do mundo e que, em termos econômicos tinha a potencialidade de controlar as economia de todos os países da África Subsaariana.

Uma constatação que Nelson Mandela entendeu e utilizou para construir a nova nação sul-africana dando à população negra a oportunidade de ser cidadão de verdade dessa nação, além de criar vários instrumentos institucionais capazes de fazer respeitar o conceito de democracia, de liberdade e de igualdade.

Muitos se perguntam, hoje porque o ANC e seu braço armado o MK (Umkhonto we Sizwe), não atacaram o que restava do regime de Apartheid. Muitos acham que Mandela e Oliver Tambo desabrocharam quando deviam endurecer no lugar de aceitar as condições fixadas pelo império.

O próprio Nelson Mandela reconhece que ele mesmo cometeu erros quando foi finalizada a Comissão para a Verdade e a Reconciliação (Truth and Reconciliation Commission, TRC), onde com uma simples declaração de culpa os torturadores, os policiais e os políticos ganharam outra oportunidade de vida na nova republica sul-africana.  O problema, é que Mandela, bem como Oliver Tambo, sabiam que no seio da população negra havia uma pequena burguesia criada pelo próprio Apartheid que queria ser e fazer apenas o que a burguesia branca fazia. Eles sabiam que também no seio do ANC se havia consolidado a formação de uma nomenclatura negra que desejava, apenas, uma parte do poder dos brancos ou das oportunidades oferecida pelo sistema capitalista. Eles sabiam que mesmo se os brancos aceitassem de se retirar, os representantes dos setores negros progressistas não eram em quantidade suficiente e, sobretudo não tinham a capacidade de assumir de um dia para outro a direção do sistema industrial e do financeiro. Eles sabiam também que o ANC e, sobretudo, seu braço armado o MK (Umkhonto we Sizwe), não havia quadros para substituir os brancos no exército, na polícia, nos serviços secretos, na aviação e na marinha militar. Além disso, Nelson Mandela sabia, muito bem que em 1991, apesar do fim da guerra fria, o mundo capitalista não teria permitido que a África do Sul seguisse a mesmo conturbado caminho do Zimbábue ou de Angola ou de Moçambique com uma interminável guerra civil.

Nelson Mandela foi, de fato, o presidente do ANC até 1999 e apesar da cara sorridente com todos, conhecia muito bem os efeitos e os problemas da conjuntura internacional e, sobretudo, da sul-africana. Por isso tentou obter o melhor do que podia para o povo negro da África do Sul. Talvez um dos erros cometidos na negociação foi de ter deixado aos herdeiros do Apartheid demasiada liberdade no controle do poder econômico. Talvez foi concedida demasiada abertura para influenciar as normas e as leis do novo estado. Talvez….

Mas será que todo o povo negro sul-africano, com suas etnias, com a eterna divisão entre Xhosas, Sothos, Zulus, Shangans e Pondo estava dispostos em construir uma nação sul-africana como o ANC apontou em 1965, quando optou pela luta armada, enquanto os regentes dessas etnias continuaram a querer sobreviver com as migalhas que o sistema do Apartheid lhe oferecia? Acredito, como muitos também afirmam, que a situação histórica e política da Palestina e o comportamento da ONU e de todos os países do Ocidente que sempre estiveram em favor de Israel, foi um exemplo que Nelson Mandela não deixou escapar. Pois, apesar de ter recebido todos os prêmios, as medalhas e as condecorações por parte dos antigos inimigos e detratores ele nunca rejeitou seu passado de comandante do Umkhonto we Sizwe.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.

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