Eleitores da União Europeia estão desligados do sentido do bloco

Escrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania   — Sexta, 30 de Maio de 2014

Esta foi a frase mais questionada pelos os 28 líderes dos países da União Europeia, que se encontraram no Palácio Justus Lipsius em Bruxelas, para realizar, no dia 28 de maio, uma reunião programática sobre o futuro do Parlamento e da Comissão Europeia, após os imprevisíveis resultados das eleições de 25 de maio.

De fato, ninguém podia imaginar que, na França, o partido pós-fascista de Marine Le Pen alcançaria 26,3%, enquanto o PS do presidente François Hollande sofreria uma queda desastrosa de mais de 30%, permanecendo no miserável 13,8%. Mas, além da França, os partidos contrários à União, chamados de eurocéticos, ganharam posições importantes. Por exemplo, na Grã Bretanha, o UKIP – principal representante dos partidos definidos eurocéticos – alcançou 26,4%, derrotando inesperadamente o Partido Conservador – que está no governo – e seu principal opositor, o Partido Trabalhista.  Outra anomalia no voto dos britânicos foi a opção europeia do eleitorado escocês, que nas eleições nacionais votou a favor da separação independentista. Algo semelhante aconteceu, também, na Espanha, com o voto europeu dos catalães.

Na Itália, o Movimento 5 Estrelas, com 21,8%, elegeu 17 deputados. Eles formarão com os parlamentares do UKIP um novo bloco político europeu, enquanto os 5 deputados europeus eleitos na lista da racista Lega Nord (6,5%) devem formar um bloco partidário com os pós-fascistas do Front National, a quem se deve juntar o único deputado do “Movimento Popular contra a União Europeia”, da Dinamarca, que foi eleito por 8% dos dinamarqueses, enquanto o abstencionismo ultrapassou 40%.

Mas os principais exemplos negativos dessas eleições foram a afirmação do partido fascista húngaro, “Jobbik”, que com 14,7% se tornou o segundo partido da Hungria, enviando três deputados no Parlamento Europeu, enquanto, pela primeira vez na história europeia, o partido neonazista alemão, “NPD”, com 1% dos sufrágios, terá um deputado no Parlamento Europeu.

Abstencionismo X Conservação

40% dos eleitores dos 28 países da União Europeia estão completamente desligados dos conceitos que criaram esse bloco continental e que, hoje, regem as instituições e a burocracia da União Europeia. Trata-se de eleitores que fazem parte dos setores populares mais atingidos pelas crises econômicas e financeiras que, a partir de 2006, se abateram sem piedade em muitos países europeus.

É, portanto, um conjunto de eleitores que, na realidade, reúne faixas importantes do operariado industrial, do novo proletariado juvenil, massacrado com as novas leis de flexibilização trabalhista, e muitos setores da classe média que, após a introdução do euro, começaram a perder gradualmente seu poder de compra e sua capacidade de dialogar com o poder. Por isso essa importante parcela do eleitorado europeu não aceita mais votar em uma classe política que, física e politicamente, desconhece.

Um contexto que se manifestou com um massivo abstencionismo no dia das eleições. Por exemplo, em Portugal, a abstenção alcançou 41,7%, enquanto na Eslovênia quase 70% dos eleitores ficaram em casa! Além disso, há os eleitores (cerca 5% em cada país) que voluntariamente anulam o voto rabiscando as cédulas!

Segundo as estatísticas, somente uns 3,5% dos eleitores que votaram em 25 de maio (43%) conhecem a plataforma política do partido e as propostas do candidato que escolheram para o Parlamento Europeu. O restante vota o partido X e o candidato Y em função da afirmação que esse partido poderá ter no âmbito nacional.

Quem transforma as eleições europeias em uma importante conjetura política é a “grande mídia”, que na realidade alimenta a alienação partidária. Do momento que os povos europeus não sentem nada pela União Europeia, nada se diz sobre se o povo da UE está à beira da bancarrota ou vivendo em condições miseráveis e, sobretudo, sobre a afirmação do sentimento europeu.

A União Europeia, para a maioria dos eleitores, é antes de tudo um amplo mercado de trabalho, ao qual os jovens recorrem quando a explosão da crise econômica os atinge em seu país.

Segundo vários analistas, este teria sido o principal erro cometido pelos legisladores europeus quando decidiram transformar a Comissão Econômica Europeia (CEE) em União Europeia (EU), impondo com a BCE e o Euro um sistema monetário europeu, sem criar as condições para a fundação de um verdadeiro estado federativo europeu.

Porém, antes de afirmar se, na realidade, este foi mesmo um erro da classe dirigente europeia, é preciso saber se os Estados Unidos teriam permitido o surgimento de um novo estado federativo na Europa com: a) um mercado interno para 500 milhões de pessoas; b) uma capacidade industrial elevada e, até, superior à dos EUA; c) uma estrutura financeira extremamente eficiente e capacitada para absorver a maior parte dos capitais dos países do Terceiro Mundo através de 11 Bolsas de Valores; d) uma moeda – o Euro –, que, a partir da década de noventa, além de ter uma cobertura em ouro, podia se tornar uma alternativa ao dólar; e) um exército que era o somatório de 12 exércitos modernos, cujas potencialidades e modelos operativos teriam, certamente, modificado ou requalificado a subalternidade da OTAN aos generais do Pentágono estadunidense.

Portanto, para evitar a criação de um mega-estado federativo europeu, cujo desenvolvimento poderia apagar o poderio dos EUA, surgiu a União Europeia seguindo o projeto conservador, de mera dependência geoestratégica dos Estados Unidos e sem mudanças sistemáticas e territoriais.

Consequentemente, todas as instâncias legislativas, executivas e burocráticas da União Europeia foram sempre direcionadas por políticos conservadores. As poucas vezes que os socialdemocratas foram convidados a compartilhar o poder do Parlamento ou da Comissão Europeia, aconteceu sempre no âmbito de uma “grande coalizão”, cujos fundamentos políticos eram uma derivação das regras programáticas dos partidos conservadores reunidos na coligação partidária do PPE (Partido Popular Europeu).

Aberração eleitoral na França

Na França, o Front National – partido pós-fascista que Marine Lê Pen herdou do seu pai – passou do limitado 6,9% (eleições presidenciais de 2012) para um excepcional 26,8%, enquanto o PS (Partido Socialista apenas no logotipo!) recuou até 13,5%. É bom lembrar que, em 2012, no segundo turno das presidenciais, o PS ganhou com quase 60%, consagrando a liderança de François Hollande.

Entretanto, o minguado 13,5% do PS, na realidade, desenha os limites da representatividade política na sociedade francesa do PS, que não é mais um partido socialdemocrata, mas sim um partido geralmente progressista que se transformou no legitimo representante político dos interesses do mercado e das estratégias de subalternidade à OTAN.

Um PS que, diferentemente do partido que com Mitterrand e Jospin defendeu o Welfare State e se chocou com o poder dos banqueiros franceses e europeus, nos últimos anos aceitou desempenhar o papel de segurador da ordem social e das políticas de austeridade impostas pela BCE. Além disso, o conceito de soberania nacional, que foi um dos carros-chefes da política de Mitterrand, foi praticamente anulado pelas pressões dos banqueiros franceses, cada vez mais ricos e cúmplices do BCE, e desejosos de se apoderar dos títulos da dívida soberana dos Estados da União Europeia.

Um papel que François Hollande e seu governo desempenharam perfeitamente, inclusive quando era evidente que as medidas de austeridade do BCE, além de abrirem a porta à recessão econômica, multiplicavam os primeiros efeitos de uma pobreza extraordinária em um país como a França, que nos últimos quarenta anos sempre garantiu aos seus cidadãos e aos imigrantes bons contratos de trabalho, bons salários e um eficiente sistema de serviços públicos.

Quando o trabalho ficou cada vez mais precário, os salários mais minguados e a degradação se espalhou nas grandes periferias das metrópoles, a simpatia pelo PS e pelo “sedutor” François Hollande quase que se transformou em ódio. Assim, a extrema-direita (Front National) começou as explorar um pretenso nacionalismo anti-União Europeia, para denunciar, antes de tudo, a presença maciça dos imigrantes árabes e africanos nos bairros suburbanos das cidades, o aumento do desemprego, a subida do custo da vida e a introdução de mais impostos.

É claro que o governo de François Hollande não foi o único responsável por essa situação de crise econômica e social. O Senhor Sarkozy, com seu governo de direita e a aliança submissa com a política europeia de austeridade da alemã Ângela Merkel, foi o principal responsável.

Porém, as excelências do Front National e da “grande imprensa francesa” souberam explorar perfeitamente a questão racial, transformando-a no bode expiatório do atual contexto político. Visto que grande parte da classe média francesa ainda manifesta certa hostilidade racista, herdada dos tempos do colonialismo, para com os árabes e, sobretudo, com os imigrantes negros das ex-colônias da África Ocidental. Assim, quando na campanha eleitoral apareceu uma mulher muito comunicativa como Marine Lê Pen – apresentando-se como uma nacionalista não fascista -, que priorizava no seu programa político a expulsão dos imigrantes africanos, o fechamento das comunidades islâmicas, para depois atacar em primeira pessoa o Euro, o BCE e a União Europeia, por serem os responsáveis pela recessão na França, então a maior parte da classe média e importantes parcelas do proletariado votaram nela. Não há dúvidas de que essa pretensa “Jean D’Arc” do século 21, com a manipulação da questão racial e a rejeição do Euro, conseguiu estraçalhar os “monstros sagrados” do PS, isto é: François Hollande, Laurent Fabius Jean-Yves Le Drian e Ségoléne Royal.

Mas é preciso realçar que aquele 15% de novos eleitores do Front National não são votos de eleitores fascistas. Na realidade, trata-se do chamado “povo boi” que, nas eleições, oscila radicalmente, e não por motivos ideológicos ou por um amadurecimento político entre a direita e a centro-esquerda e vice-versa. Por isso, os principais analistas políticos admitem que na França a volatilidade do voto do “povo boi” – tal como aconteceu, também, na Itália – aumentou em função do medo da crise econômica que a política de austeridade da União Europeia provocou na França. Em segundo lugar, em boa parte da classe média francesa prevaleceu o sentimento de viver, no dia-a-dia, os efeitos do gradual empobrecimento, cuja principal perspectiva é coabitar nos bairros suburbanos com as minorias étnicas do Terceiro Mundo, com as quais não há ligações culturais, mas somente choques e contestações.

O Front National e, sobretudo, sua líder, Marine Lê Pen, ganharam porque souberam transformar os sentimentos de medo e de abandono na convicção de que a França estava à beira de uma catástrofe, inclusive pela falta de um governo “enérgico e capaz”. Consequentemente, o resultado foi um excepcional 26,8%!

Na Itália ganhou o novo PD de Matteo Renzi

O que mais surpreendeu nessas eleições europeias foi a vitória, na Itália, do Partido Democrático e os subterfúgios políticos que o novo líder, Matteo Renzi, utilizou para livrar o PD da etiqueta de partido de esquerda ou de centro-esquerda, assumindo, definitivamente, o logotipo de “partido de centro”.

Uma operação que permitiu a Renzi captar o apoio do mercado, a simpatia dos moderados e as esperanças do “povo boi” italiano, que, em 2013, emigrou no partido de Silvio Berlusconi, “Força Itália”, acreditando cegamente nas promessas de pagar menos impostos.

O principal subterfúgio, ou arma eleitoral, de Matteo Renzi foi o Decreto-Lei 66/2014, com o qual o governo pagou aos trabalhadores com carteira assinada (mas somente para os que ganham entre 800 e 1500 euro) um bônus mensal de 80 Euros, durante três anos, a partir do salário de maio. Isto é: três dias após as eleições Europeias!

Um decreto-lei que faz lembrar as antigas manobras eleitorais do primeiro-ministro democrata-cristão, Amintore Fanfani, que, nos anos setenta, recorreu à prática indiscriminada dos D.L. para derrotar os partidos da esquerda (PCI e PSI), manipulando o voto do “povo boi”. De fato, o novo líder do PD, Matteo Renzi, convenceu os italianos com a promessa de que, dando 80,00 Euros, todos os meses e durante três anos, a dez milhões de trabalhadores, a economia italiana poderia sair do buraco da recessão e iniciar, assim, um novo período de expansão.

Uma batalha que Renzi ganhou com a ajuda ilimitada da grande mídia, enquanto no Parlamento o PD teve que recorrer aos votos da Direta e, sobretudo, do partido de Berlusconi, Força Itália, para impedir a contestação do referido decreto-lei por parte do Movimento 5 Estrelas. Porém, tendo em conta que a dívida pública italiana já ultrapassou 130% do PIB, hoje, ninguém sabe se, na realidade, o Tesouro terá, até 2018, a necessária cobertura financeira para os 80 Euros mensais, que somam10 bilhões de Euro.

Alguns economistas e, sobretudo, os sindicalistas da FIOM-CGIL (Federação dos Metalúrgicos) questionaram o governo dizendo que o Tesouro poderá pagar o “Bônus Renzi” somente até janeiro de 2015. Depois, para fazer caixa, deverá introduzir mais impostos sobre as residências, taxar novamente a gasolina e operar mais cortes no orçamento dos serviços públicos!

É necessário esclarecer que o chamado Decreto Lei 66/2014, também rebatizado “D.L. para o Voto de Troca”, foi a solução que os estrategistas da campanha de Matteo Renzi encontraram para impedir a hemorragia de votos do partido. Em segundo lugar, com esse D.L., Matteo Renzi conseguiu captar a simpatia dos eleitores moderados, muitos desiludidos com as medidas econômicas e os escândalos dos governos de direita (Berlusconi e Monti) e terrivelmente amedrontados com os proclamas revolucionários do Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo.

Por outro lado, todos os jornais, as revistas, as televisões e as rádios, bem como toda a “estrutura social” da Igreja Católica – mesmo sem a participação de papa Francisco –, apoiaram incondicionalmente a estratégia eleitoral do PD, porque, com a vitória de Renzi, as antigas lideranças formadas nos tempos do Partido Comunista Italiano (D’Alema, Bersani, Epifani, Mussi e Fassino) eram empurradas para os arquivos da história.  Enfim, um processo político chamado de “rottamazione” (isto é: sucatar), graças ao qual nascia um novo Partido Democrático “interclassista”, com um grupo dirigente não socialista e formado, na sua maioria, nos grupos dos “populares” e dos “cristão-sociais” da antiga Democracia Cristã.

Grupos que, em 2001, integraram o Partido Popular, quando a Democracia Cristã se fragmentou à causa dos escandalosos processos de corrupção (Propinopolis) e que depois, em 2004, com Francesco Rutelli, criou o partido ”Democrazia e Libertà –La Margherita”. Uma formação política que, depois, em 2005, articulou a coligação eleitoral “A Oliveira” com os ex-comunistas do PDS (Partido dos Democráticos de Esquerda). Finalmente, em 2007, os populares e cristão-sociais da Margherita apoiaram o projeto de Walter Veltroni para enterrar definitivamente o PDS e criar o PD –Partido Democrático.

Hoje, Matteo Renzi, Dario Franceschini, Enrico Letta, Graziano Del Rio, Maria Elena Boschi e Débora Serrachiani representam a “nouvelle vague” do Partido Democrata, onde, após a dissolução do PCI em 1991, cresceram politicamente na onda da abjuração do marxismo e do leninismo. Sujeitos políticos que se afirmaram a partir de 2006, quando Veltroni promoveu a reforma política e estrutural do antigo PDS, dando vida ao Partido Democrático, espelhado na experiência do Democratic Party de Bill Clinton. Um projeto que Veltroni vislumbrou já em 1992 quando publicou o livro “Il sogno spezzato. Le idee di Robert Kennedy” (O sonho quebrado. As ideias de Robert Kennedy).

Na realidade, são quase quinze anos que as referências ideológicas do PD oscilam entre a Terceira Via de Tony Blair e o liberalismo social de Bill Clinton. Por isso, a abertura política que o PD iniciou com Walter Veltroni, para convencer o mercado sobre “… as responsabilidades do Partido Democrático em confluir na área do poder para assumir a direção política da nação…”, sempre teve como objetivo consolidar a imagem de partido do poder. Algo que Veltroni conseguiu em 2008, quando ganhou as eleições com 33,8% . Aliás, foi a partir desse momento que o Partido Democrático começou a atuar perfeitamente como um partido “progressista, mas também interclassista” à maneira clintoniana, muito ligado aos sindicalismo economicista e próximo de bancos importantes, como por exemplo o Monte de Paschi de Siena.

Entretanto, para melhor entender o sucesso do PD nessas eleições, devemos ter em conta mais dois fatores que se revelaram determinantes para o PD ganhar com 41% dos sufrágios. Isto é: o abstencionismo (43%), em grande parte dos jovens que, segundo as pesquisas, eram potenciais eleitores do M5S de Beppe Grillo; e o medo que a vitória desse movimento-partido provocou na alma dos eleitores moderados.

De fato, Grillo cometeu o erro de dizer que, se o M5S tivesse ganhado com a maioria absoluta, teria fechado o Parlamento “… mandando para casa todos os deputados e os senadores, além de implantar na web Tribunais Populares para julgar os políticos corruptos…”. Além disso, Grillo, no comício final realizado em Roma e depois de ter participado na popular transmissão televisiva “Porta a Parta”, declarava que o M5S era o herdeiro da “Questão Moral” que o líder do PCI, Enrico Berlinguer, denunciou em 1981, na famosa entrevista ao jornal “La Repubblica”. Entrevista em que Berlinguer afirmava que “….para livrar as instituições e os partidos da corrupção, era preciso, antes de tudo, realizar uma revolução cultural…”.

Tudo isso foi muito bem mistificado pela grande mídia, que conseguiu amedrontar o “povo boi” com o conceito de revolução cultural, apresentando Beppe Grillo como um vulgar ditador stalinista. Adjetivação que o candidato da socialdemocracia alemã, e também aliado do PD, Martin Schultz, reafirmava em Berlin diante dos repórteres dos jornais e das televisões europeias, reaquecendo, assim, nos eleitores moderados o medo pelo comunismo. É necessário dizer que foi graça ao estereótipo do “perigo da ditadura comunista” que Berlusconi construiu sua carreira política, impingindo esse medo na cabeça dos italianos durante quase vinte anos. Um medo que ainda não desapareceu!

Por sua parte, a esquerda radical – ou o que sobra dela – apostou na coligação “Outra Europa”, liderada pelo grego Aléxis Tsipra, que se limitou a pedir menos austeridade e mais regulamentação europeia para promover o crescimento nos países em crise. Porém, esta coligação quase nada disse sobre a cúmplice atividade do BCE com os banqueiros franceses e os alemães, bem como não denunciou os compromissos da União Europeia com a estratégia intervencionista da OTAN. Por isso, passou quase despercebida, alcançando um milagroso 4,03%, que lhe dá direito a três deputados no Parlamento Europeu.

Na Itália, as eleições europeias serviram praticamente para realizar o acerto de contas entre o PD de Matteo Renzi e o Movimento 5 Estrelas. Diante desse cenário, é evidente que o primeiro-ministro, Matteo Renzi, deverá realizar de imediato as reformas institucionais prometidas pelo PD na campanha eleitoral. Ao mesmo tempo, o governo deve encontrar uma saída para começar, nos próximos meses, a sanear a dramática situação do desemprego, que já conta com 3 milhões de efetivos, enquanto outros 3,3 milhões de trabalhadores renunciaram a procurar trabalho há mais de um ano.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália, editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do “Correio da Cidadania”

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania

A credibilidade dos EUA, da OTAN e da UE depende do desfecho político da Ucrânia e da Líbia

por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania  – Segunda 12 de Maio de 2014

Os principais cientistas políticos “independentes” admitem que no último semestre os fenômenos de crises políticas voltaram com extrema intensidade em alguns países do Oriente Médio (Afeganistão, Iraque, Palestina, Egito e Líbia), enquanto os processos de subversão política promovidos pela CIA na Síria e, mais recentemente, na Ucrânia, sofreram “o efeito bumerangue”. Cenários geoestratégicos onde os EUA envolveram a OTAN e a União Europeia em uma série de operações militares e subversivas, que, na realidade, provocaram mais instabilidade política, mais crises econômicas, mais conflitualidade étnica e mais insegurança em muitas regiões do planeta.

Agora, após o massacre dos 44 russófilos em Odessa e diante da explosão da crise em quase todas as regiões do Leste da Ucrânia, em função do referendo separatista que Obama e a Merkel dizem ser ilegítimo, por não atender aos requisitos legais do governo de Kiev, muitos analistas e cientistas políticos criticam a estratégia da Casa Branca, por ter aberto muitas frentes sem ter conseguido consolidar nenhuma delas em termos institucionais, políticos e, sobretudo, econômicos.

A democracia do “Não-Estado” na Líbia

O que está acontecendo na Ucrânia reabre o debate sobre a “libertação” da Líbia, que foi realizada com a força das armas por parte dos EUA e de outros países da OTAN. Uma complexa operação militar que provocou a destruição das principais infraestruturas, a implosão institucional e a paralisia econômica da Líbia. De fato, a introdução, por parte dos EUA, de um modelo institucional parlamentar ocidentalizado exigiu a imediata criação de uma ”República Parlamentarista”, que Mustafá Mohamed Abdul Al Jeleil, Mahmud Ibril e Ali Zeidan logo legitimaram no Conselho Nacional de Transição, inclusive para assinar os decretos leis com os quais, em 5 de maio de 2011, era privatizada em tempo recorde a empresa petrolífera estatal NOC, além de reformular em favor das transnacionais estadunidenses, francesas e britânicas a metodologia dos contratos para a exploração do petróleo e do gás.

Isso tudo aconteceu porque os referidos “líderes” conseguiram se apoderar da direção da oposição, em função da massiva difusão realizada na Líbia pelas TVs árabes Al Jazeera (de propriedade do emir do Qatar, inimigo histórico de Kadafi) e Al Arabya (cujos principais acionistas são a MBC libanesa e um príncipe saudita) e, sobretudo, em função da projeção política que as TVs ocidentais (CNN e BBC) veicularam apresentando os três como “…os líderes da Revolução líbia, fundadores Conselho Nacional de Transição, legitimados para negociar com o Ocidente o fim do regime de Kadafi…”.

Na realidade, esses “três líderes” eram os porta-vozes “em off” dos governos estrangeiros que queriam tirar proveito da passividade da Liga Árabe em função das revoltas populares na Tunísia e no Egito para promover algo semelhante na Líbia e, assim, acabar com Kadafi. De fato, o primeiro ainda é o representante “em off” do príncipe saudita Bandar bin Sultan, chefe dos serviços secretos da Arábia Saudita. O segundo, ainda é o “homem da Casa Branca” que foi assessorado pelo embaixador estadunidense, Chris Stevens, até 11 de setembro de 2012, altura em que foi morto por um grupo armado de Ansar Al-Sharia – o principal grupo salafista-jihadista líbio, financiado pelos agentes do emir do Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani -, que atacou o consulado dos EUA em Benghazi. O terceiro, antes de fugir para a Suíça, era o homem de confiança do o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy.

Personagens que em 20 de fevereiro de 2011, logo após as primeiras manifestações em Túnis, jogaram um papel fundamental em Benghazi para mobilizar os grupos salafitas, a Irmandade Muçulmana e, sobretudo, os chefes tribais separatistas da Cirenaica, sentimentalmente ligados ao falecido Rei Idris, para realizar as primeiras manifestações em Benghazi pedindo a saída de Kadafi. Por isso, em 27 de fevereiro, a TV Al Jazeera anunciava que ”… Ali Zeidan, o representante na Europa do recém-formado Conselho Nacional de Transição, estava pedindo à União Europeia o impedimento dos massacres de civis por parte dos mercenários de Kadafi…”.

Enquanto a TV Al Jazeera e a CNN manipulavam as imagens das manifestações na Síria e no Egito com as da Líbia, os três, por baixo do pano, negociavam com os emissários dos EUA, da Grã Bretanha e da França a criação em Trípoli e em Benghazi de um cenário político devastador, necessário para convencer os membros do Conselho de Segurança da ONU em votar em regime de urgência, em 17 de março de 2011, a Resolução 1973, com a qual era autorizada a criação de uma zona de exclusão aérea (No Fly Zone) no norte da Líbia. Na realidade, a rapidez com que se chegou a essa resolução serviu para enganar a Rússia e a China e, consequentemente, surpreender a Força Aérea e o sistema de radares do exército de Kadafi, que foram logo atacados já no dia 19 de março. Nessa data, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, autorizou o bombardeio aéreo da capital Trípoli, enquanto Barack Obama ordenava ao comandante da 6ª Frota realizar massivos bombardeios navais e aéreos, complementados com o lançamento de centenas de mísseis cruzeiro Tomahawk.

A seguir, diante da indefinição da comunidade internacional, o Secretário Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, criou um corpo de armada para dar continuidade aos planos de invasão dos EUA e da França, utilizando, durante 86 dias, aviões, pilotos e as unidades especiais da Grã Bretanha, do Canadá, da Alemanha, da Itália e da Dinamarca. Oficialmente, a “guerra humanitária” da OTAN na Líbia acabou somente em 23 de novembro de 2011, após o fuzilamento de Kadafi em Sirte.

É preciso dizer que a República parlamentarista da Líbia, mesmo com a eleição de Ali Zeidan no cargo de primeiro-ministro, em 14 de outubro de 2012, nunca conseguiu ser um Estado. Pelo contrário, se tornou um “Não-Estado” fragmentado e dividido à causa dos conflitos que começaram, logo após a “libertação”, entre as diferentes personalidades do CNT e as correntes do mundo islâmico líbio.

Em segundo lugar, o Conselho Nacional de Transição perdeu logo credibilidade, por dedicar todas as energias da “Revolução” na destruição de tudo aquilo que lembrava a ordem institucional criada por Kadafi. Por exemplo, na primeira intervenção de Mahmud Ibril no Conselho Nacional de Transição, foi aprovada a lei que revogava as limitações à poligamia, reintroduzindo a legislação do Rei Idris, pela qual “...a mulher era um objeto de livre negociação…”.

A seguir, o CNT, no lugar de desmilitarizar as milícias – em sua maioria, infiltradas por elementos jihadistas, salafitas e, sobretudo, da Irmandade Muçulmana –, lhes  entregou a tarefa de garantir a ordem pública e, consequentemente, de realizar a “limpeza política” na administração pública e nas empresas estatais, expulsando ou prendendo quem havia apoiado Kadafi.

Uma tarefa que, a partir de 2012, com a introdução no ordenamento jurídico nacional da Sharia (lei islâmica), permitiu aos 487 chefes de grupos armados espalharem o terror em todo o país, exacerbando um clima de violência incomparável e sem fim, do momento que as milícias, em função do intenso tráfego de armas, dos financiamentos ocultos por parte de países estrangeiros e transnacionais, começaram a travar um combate sem tréguas pelo controle dos distritos onde havia instalações petrolíferas, as cidades portuárias, aldeias ou até bairros.

Uma situação política e militar que Barack Obama e o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, evitam comentar, visto que a Líbia virou uma bomba-relógio, pronta a explodir, por causa do risco da bancarrota, das pressões étnicas, das exigências tribais que se fundiram à perfeição com as reivindicações separatistas da Cirenaica e de Fezzan.

Um contexto que, em abril de 2013, Hugues Mingarelli descreveu no Parlamento Europeu quando apresentou o “Relatório da Comissão AFET sobre a situação na Líbia” e que sintetizou afirmando: “…em 2011, os estrategistas do Pentágono, da CIA e da OTAN cometeram um erro ao querer, simplesmente, desconsiderar o cenário político que se havia formado na Líbia com a queda de Kadafi. Depois, esse erro, em 2012, se transformou em uma monstruosidade política de grandes e múltiplas proporções que dificilmente poderá ser consertado do momento em que, em 2013, as milícias movimentam mais de 130.000 homens perfeitamente armados, enquanto a produção petrolífera de 1.500.000 barris diários baixou para 100.000/250.000, com um prejuízo de cerca 10 bilhões de dólares por dia!”.

Um erro que a diplomacia estadunidense e a responsável pelas relações exteriores da União Europeia, Lady Ashton, conseguiram esconder desviando as atenções dos participantes na Conferência Internacional sobre a Líbia, realizada em Roma em 6 de março de 2014. Mesmo assim, a ministra das relações exteriores italiana, Federica Mogherini, apesar da puxada de orelha de Obama ao primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, não conseguiu esquivar-se de dizer: “A Líbia, ainda, não é um Estado. Por isso qualquer problema é, sobretudo, político antes de ser técnico. Por isso, nenhuma ajuda, por mais eficaz que seja, poderá substituir o processo de transição política que deve ser concluído para permitir a construção do Estado. Porém, cabe aos líbios criar as necessárias condições políticas para que isso tudo se realize…”.

Uma situação que, no atual contexto geoestratégico regional, pode concorrer para desestruturar as frágeis relações políticas e institucionais que foram recriadas no Marrocos, no Egito, na Tunísia, no Níger, na Argélia, na Mauritânia e no Mali. Isto é, uma macrorregião que fornece aos países da União Europeia 40% do petróleo e 60% do gás, sem esquecer a produção de urânio e de fosfatos.

Iraque: a primeira grande derrota

Ao analisar as diferentes frentes militares, onde os pelotões de “marines” (fuzileiros) ainda patrulham as estradas em permanente estado de alerta, resulta que a paz, a democracia, a estabilidade, a segurança e o desenvolvimento são meros predicados da retórica de Barack Obama, Joe Biden e John Kerry.

Uma retórica que é verbalizada todas as vezes em que o Pentágono deve alcançar um objetivo geoestratégico e aliciar a participação de um ou demais aliados europeus. De fato, a invasão militar do Iraque demorou 10 anos. Mesmo assim, 35.000 soldados do exército dos EUA ainda permanecem no Iraque para “ajudar o exército iraquiano a combater o terrorismo”, enquanto mais de 50.000 civis, entre assessores, conselheiros, dirigentes de transnacionais e funcionários de ONGs,  foram mobilizados para “organizar a transição e a formação de um regime democrático” que, hoje, oscila entre o fantasmagórico e o ilusório.

Uma conclusão que se fundamenta avaliando a intensidade dos atentados terroristas realizados recentemente na capital Bagdá, a explosão da violência urbana, a existência de perversa corrupção, a ausência de infraestruturas socioeconômicas e, principalmente, a miséria que atinge grande parte da população urbana, em particular a da capital Bagdá.

Um país onde o governo do primeiro-ministro Nuri al-Maliki simboliza apenas as regras fixadas durante os anos da invasão e a incapacidade de acabar com a conflitualidade étnica e a intolerância religiosa, tanto que no norte os curdos pretendem transformar o Curdistão iraquiano em um Estado independente. No sul, os xiitas desejam a unificação com o Irã, enquanto, no centro do país, os grupos fundamentalistas sunitas, os jihadistas e as células da Al-Qaeda combatem para a instauração do chamado “Califado do Grande Oriente”. Um novo Estado que deveria se estender do centro do Iraque até o norte do Líbano, ocupando grande parte da Síria. Portanto, os dois trilhões de dólares gastos em operações militares por George Bush e depois por Obama, para exportar a “democracia parlamentar ocidental no Iraque”, podiam ser utilizados em projetos mais úteis, como, por exemplo, a erradicação da fome no mundo ou a realização dos projetos contra a desertificação!

Afeganistão: outra guerra perdida

Para evitar a volta dos Taleban em Cabul, em 2001, foi criada a Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF), que com 110.000 soldados (67.000 dos EUA e 37.000 de Reino Unido, Canadá, Itália, França, Turquia, Alemanha e Polônia) invadiu o Afeganistão para instalar um “regime democrático”.

A invasão se transformou em ocupação permanente e ficou mais segura somente após o acordo com “os Senhores do Norte”, isto é, os donos das regiões onde é cultivada a papoula, cuja pasta opiácea é vendida aos narcotraficantes de heroína do mundo inteiro, ao longo das fronteiras, em virtude da cumplicidade do ISI (Serviço Secreto Militar) do Paquistão.

Segundo uma pesquisa da ONU realizada em 2013, os EUA teriam gasto em despesas militares no Afeganistão cerca de três trilhões de dólares. Mesmo assim, os Taleban permanecem em 65% do território afegão. Por isso, Barack Obama admitiu que, após a conclusão da missão do ISAF, em dezembro de 2014, haverá também a retirada dos soldados estadunidenses, excluindo os 15.000 homens das “tropas especiais”, que permanecerão no Afeganistão para monitorar o novo exército afegão (316.000 homens) “no combate aos terroristas”.

Todos sabem que as operações do ISAF e os projetos socioeconômicos realizados pela ONU não pacificaram o país. Por isso, a saída do contingente militar do ISAF deixará um importante vácuo político na estrutura étnico-tribal criada pelos conselheiros estadunidenses para manter na presidência Hamid Karzai. Nesse contexto, para o novo presidente que será escolhido com o voto do segundo turno em 7 de novembro, será muito difícil criar uma frente nacional capaz de dar continuidade ao modelo institucional imposto pelo exército dos EUA e, ao mesmo tempo, enfrentar militarmente os Taleban no interior do país, sem a cobertura militar dos 110.000 soldados do ISAF.

Nesse contexto, a decisão de Obama de deixar Hamid Karzai, Abdullah Abadani e Ashraf Ghani ao próprio destino é um evidente sinal de que os quase quinze anos de guerra não mudaram o cenário estratégico do Afeganistão, onde o problema central, tal como em 1996, é, por um lado, a presença dos Taleban nas regiões centrais e meridionais; e, por outro, o cultivo da papoula e a produção da pasta de ópio no norte do Afeganistão, além da impossibilidade das transnacionais de explorar os depósitos muito extensos de petróleo e gás, que, em 2007, foram avaliados entre 900 bilhões e três trilhões de dólares.

A guerra subversiva na Síria

O que está se passando na Síria ainda permite a Casa Branca dizer nos fóruns internacionais que os EUA não estão envolvidos na guerra civil síria, mas que se limitam a dar apoio aos “combatentes da liberdade contra o regime de Bashar Al-Assad”. De fato, o vice-almirante Bruce Clingan, comandante em chefe da 6ª Frota, ainda não recebeu a ordem para atacar os navios da marinha militar síria ou fustigar com foguetes os quartéis do exército de Bashar al-Assad.

Neste contexto, segundo os cientistas políticos, “na Síria o conflito ainda está na fase de guerra subversiva. Isto é, uma guerra civil primária, onde os serviços secretos das grandes potências atuam em incógnito, norteando a evolução dos combates, além de garantirem o reabastecimento das armas, administrarem a logística e gerenciarem o fluxo dos financiamentos ocultos. Uma guerra que aumenta ou diminui de intensidade conforme o nível de tensão nas relações diplomáticas e a necessidade de polarizar o cenário geoestratégico…”.

Uma guerra civil que, apesar das ameaças de Hillary Clinton em 2012 e depois de Barack Obama em 2013, não extrapolou a ponto de provocar a intervenção militar dos EUA ou dos exércitos da OTAN ou de Israel. É, sim, uma guerra civil, planejada para provocar, antes de tudo, a destruição econômica da Síria e a desestruturação do seu exército regular. Condições essenciais para impor na mesa de negociação da Conferência de Genebra-2 uma nova fórmula institucional, que visa afastar do poder os grupos políticos ligados a Bashar Al-Assad.

Porém, não obstante o apoio financeiro oferecido por Arábia Saudita, Qatar, Emirados Unidos e Omã, e apesar da cobertura logística garantida pela Turquia e a Jordânia, a guerra subversiva planejada pela CIA não logrou seu objetivo estratégico: desarticular o exército de Bashar Al-Assad que, após dois anos de combates, não se desintegrou. Pelo contrário, os últimos informes indicam que conseguiu reverter o contexto operativo e passar ao contra-ataque, ao ponto de reconquistar a cidade de Homs, considerada pelos rebeldes a “verdadeira capital da Síria”.

O efeito bumerangue na Ucrânia

Depois da dissolução da URSS e da desastrosa gestão política e econômica de Boris Yeltsin, na Federação Russa, em 1999, começou um novo ciclo político sob a liderança de Vladimir Putin e de Dimitri Medvedev, que previa salvaguardar as relações econômicas e geoestratégicas com os 11 países da CEI (Comunidade dos Estados Independentes). Uma decisão que visava impedir a expansão da OTAN no Leste europeu, realizada com as propostas de adesão à União Europeia.

Por isso todos os governos dos EUA – sejam eles republicanos ou democratas – autorizaram a CIA realizar campanhas de intoxicação midiática associadas a verdadeiras operações subversivas em tais países, conseguindo que, em 2005, primeiro o Turcomenistão e depois a Geórgia, em 2008, deixassem a CEI, rompendo assim com a Rússia.

Na Bielorrússia, mas sobretudo na Ucrânia já a partir de 1988, os EUA promoveram um processo de subversão pacífica através da formação do movimento não-violento “Pora” (Está na Hora), cujos líderes foram financiados e treinados por uma coalizão de peritos em sondagem de opinião ocidentais e consultores profissionais, financiados por uma união de agências governamentais e não-governamentais, que segundo o jornal britânico “The Guardian” juntavam o Departamento de Estado, a USAID, o Instituto Democrático Nacional, o Instituto Republicano Internacional, a Freedom House (Casa da Liberdade) e a Fundação Doação para a Democracia.

O primeiro resultado desse processo de “subversão não violenta” se deu em 2004, com a conhecida “Revolução Laranja” de Viktor Yanukovich e Yulia Timoshenko contra o presidente Leonid Kuchma.

Porém, depois da derrota que a CIA e os conselheiros militares da Casa Branca sofreram na Geórgia, em 2008, com a guerra na Ossétia do Sul, e o reconhecimento da independência da República Autônoma da Abecásia, a Casa Branca decidiu aprofundar o processo de desestabilização da Ucrânia sob a supervisão da embaixadora dos EUA na OTAN, Victoria Nuland. A mesma que depois, em 2013, apesar de ser ligada ao Partido Republicano, foi nomeada por Obama Vice-Secretária de Estado norte-americana para os Assuntos Europeus e enviada a Kiev com a função de monitorar o golpe “EuroMaidan”, contra o presidente pró-russo, Viktor Yanukovich.

Um cargo de máxima confiança do momento que, após o sucesso do presidente Putin na Conferência de Genebra sobre a Síria e nas negociações com o Irã, era de vital importância inviabilizar a consolidação da geoestratégica do governo russo na Europa do Leste, favorecendo a saída da Ucrânia da CEI e a consequente admissão na União Europeia. Algo que teria permitido à OTAN se apoderar da base naval de Sebastopol, na Criméia, além de passar a controlar os três grandes gasodutos a partir dos quais a Rússia exporta o gás para a Europa e “dulcis in fundo” a produção das 130 unidades da indústria militar Ukroboronprom, da Motor Stich, da Zorya Mashproekt e da Antonov Airlines. Estabelecimentos que asseguram o fornecimento de peças para 400 indústrias militares russas, além de garantirem a manutenção dos mísseis balísticos intercontinentais do tipo RS-20 e a construção do famoso Antonov An-225 Mriya.

Nesse contexto, os EUA e a OTAN sofreram as consequências do “efeito bumerangue” logo após o repentino sucesso do golpe “EuroMaidan” em Kiev, quando o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, legitimou a realização do referendo separatista na Criméia, onde 96% da população daquela região manifestou o desejo de oficializar a união com a Rússia.

Na realidade, o golpe “EuroMaidan” monitorado pela Vice-Secretária de Estado norte-americana para os Assuntos Europeus, Victória Nuland, revelou a fragilidade do governo-interino de Arseniy Yatsenyuk, do momento em que sua legitimidade institucional e sua representatividade política foram, praticamente, rejeitadas em todas as regiões do leste e do sudeste da Ucrânia. Regiões que, além de serem as mais industrializadas, são povoadas por populações russófilas que almejam manter uma estreita ligação com a Federação Russa.

Por outro lado, o massacre de 48 militantes russófilos, queimados vivos em Odessa no Palácio dos Sindicatos, alimentou, ainda mais, os sentimentos separatistas em 90% das regiões do leste e sudeste ucranianos, que decidiram realizar o referendo separatista em 11 de maio, onde 83% da população foram às urnas e 95% dos votantes se expressaram em favor da separação. Um referendo realizado apesar de as tropas do governo de Kiev ameaçarem invadir as principais cidades da Ucrânia do leste, para reprimir as “manifestações dos terroristas no leste do país”.

Outro elemento que fez merecer ao presidente-interino Oleksandr Turchynov o adjetivo de “marionete da Casa Branca” foi a falsa denúncia de que o presidente Putin havia planejado a invasão do leste da Ucrânia. Declarações alarmistas que durante todo o mês de abril ocuparam muito espaço na “Grande Mídia”, permitindo ao Pentágono montar um posto de observação com 600 soldados na Estônia, enquanto a USAF fazia aterrissar 12 caças-bombardeiros F-16 na base aérea polonesa de Lask e o Comando da OTAN destinava nos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) 15 caças-bombardeiros, fornecidos pela Força Aérea do Reino Unido (Eurofighter), da Dinamarca (F-16) e França (Mirage 2000).

É evidente que a presença de caças-bombardeiros dos EUA e da OTAN na região báltica visa acalmar os governos daquela região com a realização de um ostensivo patrulhamento aéreo ao longo das fronteiras com a Rússia. Porém, é também verdade que as patrulhas dos F-16 ou dos Mirages 2000 nunca entrarão em combate contra os SU-27 Flanker russos que, em número de 30, aterrissaram nos aeroportos militares da Bielorrússia.

Para aplacar a tensão política, o Ministério da Defesa russo, em 23 de abril, havia comunicado aos seus homólogos europeus e estadunidenses que seu exército havia concluído as manobras militares, realizadas durante um mês ao longo das regiões fronteiriças com a Ucrânia. Além disso, o ministro da Defesa russo informava pessoalmente as autoridades militares dos EUA e da OTAN que todo o contingente mobilizado nessas manobras (100.000 soldados, 25.000 tanques e cerca de 100 caças bombardeiros) já havia regressado aos seus quartéis, que se encontram há mais de 70 ou 100 quilômetros da fronteira. Mesmo assim, Barack Obama e o britânico Nick Cameron voltaram a declarar que a retirada era uma farsa e que Putin queria invadir a Ucrânia. Por isso eles queriam que a União Europeia aplicasse novas sanções, começando a dispensar a compra do gás russo, substituindo-o com o gás que os EUA produzem com a exploração dos xistos betuminosos.

Não há dúvidas de que o “efeito bumerangue” atingiu em cheio os estrategistas da CIA, visto que a maior parte dos países europeus não concorda em substituir o gás russo pelo estadunidense, sobretudo por causa do preço mais alto e das dificuldades de distribuição dos portos franceses, espanhóis e holandeses.

Em segundo lugar, Barack Obama e John Kerry contavam com a “neutralidade” do governo chinês que, contrariando as previsões dos sinólogos da Casa Branca, interveio defendendo abertamente a Rússia. De fato, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Qin Gang, advertia que o governo chinês “condenava o uso de ameaças e de sanções nas relações internacionais…”, salientando que “o governo da China acredita que as sanções não contribuem para solucionar os problemas. Pelo contrário, produzem ainda mais tensões”.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália, editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do “Correio da Cidadania”.

Por que os EUA e a União Européia sustentam a rebelião na Ucrânia?

https://i0.wp.com/www.voyagesphotosmanu.com/Complet/images/cartina_ucraina.gifNas últimas duas semanas o centro da capital, Kiev, permaneceu ocupado pela polícia para impedir que os manifestantes invadissem o Parlamento e o palácio da presidência. Por isso a oposição prometeu realizar a “Marcha” com um milhão de pessoas, que com a participação dos ultra-nacionalistas do partido Svoboda , não conseguiu mobilizar que 200.000 pessoas, em maioria vindas do interior do país.   

Achille Lollo (ROMA) — Os dois principais partidos da oposição, nomeadamente Bloco Nossa Ucrânia/Autodefesa Popular de Viktor Juscenko e o Partido da Pátria/Bloco Eleitoral de Julia Tymosenko decidiram enfrentar diretamente o presidente Viktor Jankovic e o primeiro ministro Mykola Azarov, após o presidente anunciar na televisão que o governo havia finalizado as negociações com a União Européia, postergando, mais uma vez, a eventual entrada no bloco dos países europeus. Além disso, Viktor Jankovic, ressaltava que era mais conveniente em termos econômicos e geoestratégicos para a Ucrânia reforçar o relacionamento com a Rússia.

Para os líderes da oposição, Viktor Juscenko e a riquerrima Julia Tymosenko – que, oficialmente, continua presa por fraude à receita —  esta foi a grande ocasião para obrigar o presidente Viktor Jankovic a demitir o primeiro-ministro, Mykola Azarov e, conseqüentemente, promover novas eleições.

De fato, a oposição alimentou nos jovens pobres o mito da riqueza dos países da União Européia, que qualquer um deles podia adquirir ao conseguir emigrar com um passaporte europeu. No mesmo tempo, as mesmas fontes manipulavam os jovens dizendo que Jankovic e Azarov haveriam rejeitado a proposta de entrar a fazer parte da União Européia, antes de tudo, para vetar a imigração dos jovens ucraínos na Europa. Além disso, para  acirrar ainda mais os  ânimos dos manifestantes, as lideranças da oposição diziam que o presidente Jankovic havia dito não a União Européia por imposição do presidente russo Vladimir Putim.

Argumentos que provocaram uma dura reação popular e que foi muito bem aproveitada pelos canais de televisão europeus e estadunidenses para pressionar o governo da Ucrânia em libertar Julia Tymosenko, condenada por crimes financeiros quando era presidente da Companhia Geral de Energia.

Nesse contexto a manipulação do clima político foi excepcional, conseguindo empolgar os eleitores dos dois partidos da oposição e, assim, construir facilmente uma rebelião popular, que ao juntar um milhão de pessoas nas ruas de Kiev, pretendia exigir a demissão do presidente Viktor Jankovic.

Uma espécie de ruptura institucional que deveria repetir o golpe branco de 2004, chamado de “revolução laranja”, que se deu com a direita sustentação dos serviços secretos dos EUA e dos principais países da União Européia, nomeadamente: Alemanha, França, Grã Bretanha e Países Baixos. Aliás, a estreita ligação da Cia com a líder do Partido da Pátria/Bloco Eleitoral, Julia Tymosenko e o envolvimento da Freedom House na campanha dela, bem como o uso de fundos secretos para comprar os votos em favor de seu partido, foi um dos argumentos explorados pelo jornalista Georgij Gongadze, cujo assassinado, aos 17 de setembro de 2000, permitiu a Julia Tymosenko, ao então presidente Leonid Kuchma e a outros oligarcas – escandalosamente  enriquecidos com as privatizações das  empresas públicas – de livrar-se das pesadas acusações que o jornalista havia gravado em suas reportagens.

A importância da Ucrânia   

Depois da Rússia, a Ucrânia é a nação mais densamente povoada – com cerca de 46 milhões de habitantes, dos quais um terço de etnia russa – e com mais centrais nucleares (11) construídas pela então União Soviética. De fato, o atual presidente Viktor Jankovic, assinou com a Rússia um novo protocolo para a construção de mais doze centrais nucleares, além de ampliar o acordo para o fornecimento do urânio enriquecido.

Um negócio que, juntamente ao fornecimento do gás, é o cherne das opções geoestratégicas do atual governo da Ucrânia, do momento em que foi a empresa russa Gazprom que construiu na Ucrânia todos os terminais de distribuição para abastecer os países europeus e por isso o governo de Kiev paga, ainda hoje, o gás à preço de favor (50 U$D no lugar de 230U$D).

Por outro lado, na Ucrânia há muitas empresas russas de aviação, metalúrgicas e mineração que os oligarcas ucrainos pretendem nacionalizar para depois privatizar com a ajuda de transnacionais ocidentais. Um processo que iniciou, em 1996, para depois expandir-se em 2000 quando Viktor Jankovic, foi presidente e Julia Tymosenko se assenhoreou o cargo de primeiro-ministro – até ser demitida por extrema incompetência .

Por outro lado, a azarada decisão do Departamento de Estado de apoiar a fraudulenta aventureira Julia Tymosenko, foi uma conseqüência política da necessidade dos EUA de ampliar sua influencia geoestratégica na Ucrânia e portanto estar cada vez mais perto da região do Cáucaso, onde a Geórgia, a Ossezia, a Inguscezia e a Abcasia querem romper com o protecionismo da Rússia para negociar com as multinacionais do Ocidente seu potencial de gás e de petróleo. Nesse contexto, somente um governo filo-ocidental, tal como Viktor Jankovic e Julia Tymosenko propõem, pode exigir da Rússia a saída da base naval de Sebastopoli e entregá-la à OTAN.

É claro que para realizar todas essas mudanças institucionais e geoestratégicas a Ucrânia deve, antes de tudo, sair pacificamente da orbita da Rússia. Por isso a oposição – graças ao dinheiro da ricaça Julia Tymosenko –  está arrastando para a capital Kiev dezenas de milhares de ucraínos para manifestar em favor da assinatura do protocolo de  adesão à União Européia. De fato, uma vez, dentro do bloco europeu, será mais fácil separar a Ucrânia da Rússia, sempre que o presidente Putim e o governo russo aceitem em silencio as jogadas políticas que os EUA e a União Européia estão fazendo na Ucrânia com Viktor Jankovic e Julia Tymosenko.

 Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.

Europa: superprodução, saturação econômica, degrado social, ou seja a crise de um projeto político

https://albainformazione.files.wordpress.com/2013/12/c5fef-crisi2bdebito2beuropea.jpgEscrito por Achille Lollo para Correio da Cidadania – São Paulo/Brasil, aos 14-12-2013

Nos discursos de fim do ano que os secretário de imprensa dos presidentes dos países membros da União Européia redigem, haverá a fatídica frase de sempre: “…estamos no fim do túnel da crise e a saída desponta à nossa frente com um luminoso crescimento econômico…” Enfim, uma frase que em alguns países será recebida como um convite para um feliz chá paulista, enquanto em outros, será pior que uma xícara de amargo café requentado, onde o único sabor será o da recessão com o desemprego cada vez mais generalizado em uma sociedade em via de decomposição. De fato, esse é o contexto sócio-econômico da Europa que, na prática, renega tudo, ou quase tudo, que foi prometido e legislado em favor da União Européia. Tendo em conta que o antigo Tratado de Roma (25/03/1957) pretendia criar um estado federativo europeu que, por sua parte, nunca chegou a ser realizado, criando apenas controversos e contraditórios instrumentos institucionais. Primo entre eles o Euro e a dita União Econômica Monetária (UEM) que, hoje, após treze anos de atividade, existe em apenas 17 dos 28 países da União Européia.

Na prática, isso significa que em 2014, e talvez nos próximo dez ou vinte anos a União Européia nunca se transformará em uma federação de estados e que, somente com muitos compromissos e mudanças na sua atuação, a BCE conseguirá preservar o Euro como moeda única dos países da União Européia.

Em segundo lugar o próprio conceito de unidade européia ficou definitivamente desvalorizado em 1993 com o Tratado de Maastricht, que no lugar de unificar os 27 países, na realidade, aprofundou, ainda mais, as diferencias políticas e jurídicas, que por efeito das repetidas crises econômicas e financeiras multiplicou os elementos diferenciais entre os estados membros da União Européia.
Praticamente, as múltiplas características institucionais e o florescer de diferentes e contraditórias situações conjunturais nos 28 países da UE, retiraram à União Européia o potencial geoestratégico, em base ao qual devia negociar com os países do Terceiro Mundo a alternativa econômica, financeira, comercial, cultural e, sobretudo, monetária que os Estados Unidos e o dólar não ofereciam mais.

A silenciosa luta subterrânea que desde 1990 pôs frente-a-frente os EUA e a União Européia, sobretudo no que diz respeito às normas reguladoras do comércio internacional e da propriedade industrial, bem como os elementos capazes de determinar os fluxos dos investimentos e das atividades especulativas, abrandou somente quando os países da União Européia aceitaram os termos globais da dependência ao Impero, que cada país europeu torna mais nítida o até acentuada – como é o caso da Itália, de Portugal, da Espanha e da Grécia – em função do nível de crise que suas economias estão vivendo. Portanto, em 2014, mais a crise atacará os quatro países mediterrâneos e mais seus governos aumentarão a dependência política da Alemanha e, sobretudo, dos Estados Unidos. Pois, somente com esses dois poderosos intermediários, os primeiros-ministros portugueses, espanhóis, italianos e gregos poderão obter “compreensão” dos diretores da Tríade (FMI, Banco Mundial e BCE).

Trabalho X Subsistência?

À diferença dos Estados Unidos e do Japão, nos países da União Européia a crise é, antes de tudo uma crise de superprodução industrial, setorialmente diversificada que abrange as principais nações européias. Uma crise que nos próximos anos ao sancionar a saturação econômica, registrará o avanço do degrado social em quase todos os 27 países da União Européia, também, à causa das contínuas ondas migratórias que trazem dos países árabes, do continente africano, do oriente Médio e das antigas repúblicas socialistas mão-de-obra desempregada pela qual não há mais trabalho. Mesmo assim as centrais de recrutamento continuam a manter aceso o falso farol do “bem-estar europeu para todos”, com o único interesse de saturar o mercado de trabalho em toda Europa e assim criar uma situação onde será o trabalhador que oferecerá sua força de trabalho a preços cada vez mais aviltantes. Desta forma, graça a cumplicidade dos sindicatos e dos partidos “social-reformistas”, o capital europeu estará conseguindo impor a equação “Trabalho X Subsistência”, quando na década de setenta a mesma equação era “Trabalho X Bem-Estar”!

Uma operação que, no passado, teve muito êxito com os imigrantes da România, de Albânia, da Polônia, da Tunísia e do Egito. Agora é a vez da Ucrânia, onde os jovens estão sendo mobilizados para provocar a queda do governo, caso este não assine o protocolo de adesão à União Européia. Um acordo que vai permitir há mais de um milhão de jovens ucrainos de emigrar livremente para Alemanha, Republica Ceca, República Slovaca, Polônia e Áustria. Um numeroso fluxo emigratório que dará aos empresários o poder de flexibilizar ainda mais as normas para a ocupação e que deixará na rua cada vez mais desempregados. Muitos desses, infelizmente irão engrossar a economia ilegal das organizações criminosas (contrabando, venda de órgãos, prostituição, narcotráfico, falsificação de produtos industriais e medicinais, etc. etc.).

No próximo futuro, esse contexto deverá tornar mais solidas as diferencias sócio-econômicas na Europa, além de congelar para sempre o projeto comunitário europeu. Isso significa que países como Grã Bretanha, Suécia, Finlândia e Dinamarca (que não aceitaram entrar na “Euro-Zona” e que não usam o Euro como moeda oficial), deverão alcançar mais autonomia em definir os níveis de relacionamento financeiro e comercial com os EUA, o Japão e a China. É claro que para a Grã Bretanha essa autonomia é, na realidade, uma escamoteação política para permanecer na União Européia, apenas, nos termos que dão benefícios à sua economia. De fato, a idéia de Margareth Thatcher de integrar globalmente a Grã Bretanha ao sistema econômico, financeiro e geoestratégico dos Estados Unidos é, ainda, um elemento vigente no Parlamento britânico que acomuna conservadores e trabalhistas.

Uma Alemanha cada vez mais poderosa

Entretanto o cético auto-isolamento da Grã Bretanha e da Suécia, favoreceu a afirmação da Alemanha em todos os setores econômicos. Hoje, ao ser donos de mais de 50% das dividas soberanas de 15 estados da União Européia, os bancos teutônicos ocasionaram a “germanização” das políticas financeiras e econômicas da União Européia. De fato, em meados de 2014, a maior parte dos países europeus deverão refinanciar suas dividas. Por sua parte, os bancos alemães continuarão a especular com os títulos das dívidas soberanas dos estados devedores, revendendo-os aos bancos públicos e privados dos mesmos estados devedores. Desta forma a ciranda da dívida tornará mais duras e cruéis as medidas de austeridade.

Por isso, na Alemanha, o governo de “grande coalizão”, formado pelos conservadores e os social-democratas, em 2014, irá exercer, em todos os níveis, um eficaz controle social, para poder continuar a impor aos governos dos países da União Européia a austeridade como solução política para os problemas provocados pela crise e a conseqüente recessão. É claro que os principais beneficiários serão novamente os bancos e os conglomerados da Alemanha, os únicos com fantásticas reservas financeiras capazes de sustentar o desenvolvimento e a projetação de novas tecnologias.

Ao invés, França, Bélgica, Luxemburgo, Países Baixos, Áustria e Irlanda que, em 2007/2008 salvaram seus sistemas financeiros da bancarrota com os polpudos empréstimos da União Européia, continuarão a sustentar os diferentes planos de austeridade concebidos pela BCE, apesar de uma parte de suas indústrias ter voltado à normalidade e o restante estar saindo do vermelho.
É preciso sublinhar que se a perigosa luz do “DEFAULT continua apagada nestes países, seus governantes, em 2014, continuarão a “liberalizar” suas economias privatizando as principais empresas de serviços públicos e, no mesmo tempo vender nas Bolsas parte dos ativos acionários das empresas públicas de energia e de transporte. Operações que visam desmantelar o antigo “Welfar Stade”, cujo custo, evidentemente, vai recair no bolso dos consumidores e, sobretudo, dos contribuintes, penalizado-os com o aumento das alíquotas fiscais dos produtos de consumo e com a introdução de novos impostos (IVA, Irpep, ICI, etc. etc.).

Por exemplo, o primeiro-ministro irlandês, Edna Kenny, anunciou aos 14 de dezembro, que a Irlanda, havia finalmente concluído o “programa de salvação” imposto pela BCE, pelo qual o governo, em apenas dois anos foi obrigado: 1) a mutilar o orçamento das despesas e investimentos públicos com um corte de 30 bilhões de euro (93 bilhões de Reais) equivalente a 20% do PIB; 2) introduzir novos impostos; 3) Aplicar um “desconto” de 20% em todos os salários; 4) Decepar 85% dos benefícios assistenciais; 5) Congelar o valor das reformas.

Para o 2014 o arquejante primeiro-ministro irlandês prometeu cortar mais dois bilhões de Euro no orçamento dos serviços públicos e fixar novos impostos com a justificação de que “…assim estaremos financeiramente preparados para intervir e sanear eventuais sinais de crise…” Na verdade, os novos impostos servirão, apenas, a pagar as dividas contraídas com a BCE e seus bancos alemães e franceses associados no dito “programa de salvação da Irlanda”. Cabe dizer que as medidas recessivas que afetaram os salários e as reformas continuam efetivas, de forma que o povo irlandês, hoje, vive em condições mais ruins que aquelas registradas em 2007/2008 quando o país entrou no caminho da bancarrota.

Nacionalismo anti-europeu e fascistóides

As excessivas medidas de austeridade provocaram um contragolpe político que é mais grave que a própria crise financeira. De fato, na França, na Bélgica, na Grécia e na Áustria foi se afirmando, cada vez mais, um nacionalismo fascistóide para exigir a saída da “Euro-Zona”, o retorno da moeda nacional, a abolição do tratado de Lisboa e de Maastricht e, sobretudo, o fim dos programas de austeridade. Na França, por exemplo, a fascista Marie Le Pen, da Frente Nacional, conseguiu manipular esses conceitos anti-europeus, responsabilizando o governo de centro-esquerda liderado por François Hollande. Pois, todos sabem que para evitar que a França entrasse no perímetro vermelho do “Default”, o governo social-reformista de Hollande espremeu o bolso dos franceses impondo mais impostos e mais cortes nos serviços públicos. Medidas que foram tomadas por que o anterior governo de direita de Nicolas Sarkozy havia deixado as contas públicas num estado lastimável.

Um contexto que, na França e na Bélgica, poderá provocar desagradáveis surpresas nas eleições européias de maio de 2014, do momento em que uma grande percentagem de eleitores perdeu a confiança na política e nos partidos. Conseqüentemente não vai mais a votar, enquanto outro 30% está praticamente cansado e disposto em votar todos aqueles que prometem não só o fim da austeridade, mas, sobretudo, o fim do Euro.

Austeridade e mais austeridade

Em 2014, os países mediterrâneos da União Européia, nomeadamente: Portugal, Espanha, Itália, Croácia, Grécia e Cipro, devem registrar os mesmos índices negativos apontados em 2012 e 2013, com algumas melhorias para as indústrias exportadoras que, por sua parte, não modificam a situação de crise dos respectivos países. Motivo pelo qual a principal tendência será um endurecimento das medidas de austeridades.

Na Itália, por exemplo, apesar do país estar em plena recessão desde 2011, à cauda da irresponsável administração do governo direitista chefiado por Silvio Berlusconi e depois com as cruéis medidas de austeridades impostas pelo paladino da União Européia, Mario Monti, o governo de “amplos entendimentos” (centro-esquerda, centro-direita e direita), liderado por Enrico Letta do PD, nada está fazendo para aliviar os italianos do peso dos impostos – que encararam os produtos de um mínimo de 45% até 62%.

Neste contexto, a direita e os grupos fascistóides começaram a manipular o nacionalismo, o drama dos desempregados, a revolta dos comerciantes à beira da falência e o protesto anti-europeu, com o objetivo de ocupar um importante espaço político e propor soluções autoritárias diante da evidente falência da classe política que hoje administra o estado.

De fato, o que está acontecendo na Itália é um complexo processo de agregações políticas extremamente perigosas, por que o genérico e emotivo protesto anti-europeu vai culpabilizar somente o governo liderado por Enrico Letta que é o último ator de uma comédia política que o capitalismo levou à cena durante vinte e três anos com seus programas neoliberais.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do “Correio da Cidadania”

Quo Vadis Partido Democrático?

https://i1.wp.com/www.formiche.net/wp-content/uploads/2013/12/matteo-renzi-188808.jpgEscrito por Achille Lollo (ROMA), para Correio da Cidadania – São Paulo/Brasil aos 10/12/2013

Este é o questionamento que a maioria dos eleitores do PD faz após as eleições primárias de 8 de dezembro, onde Matteo Renzi, prefeito de Florência, ganhou a cadeira de Secretário Geral, juntamente a doze desconhecidos dirigentes, membros da nova direção que, agora, pretendem “rottamare”, isto é “mandar embora” o velho grupo dirigente, filhote do compromisso histórico de Enrico Berlinguer e dos “acordos amplos” de Giorgio Napolitano.

Neste contexto – que toda a mídia exalta -, a principal característica política da “Onda de Matteo Renzi” é que com ele o PD não vai atacar o capital financeiro ou o mundo empresarial. De fato, a Confindustria (CIESP italiana) os diretores da “grande mídia”, o Departamento de Estado e o Banco Central Europeu sabem perfeitamente que Renzi é, apenas um “democrático progressista” que nunca teve a ver com o marxismo e nunca integrou a contestação juvenil! Renzi é, praticamente, o produto político e cultural da crise ideológica que o PCI introduziu na esquerda italiana quando optou em querer entrar nas salas do poder sustentando a componente progressista da Democracia Cristã. De fato, a componente “cristão social”, cujos principais líderes são o chefe do governo Enrico Letta e Dario Franceschini, hoje é quase majoritária no PD.

Por outro lado, Renzi, ao manifestar o projeto de rejuvenescer o partido revelou, também, que seu objetivo é acabar com as ícones do passado, que, a partir de 1989, favoreceram a maquilagem política do “PCI-PDS-Ulivo-PD”. Declarações que satisfazem plenamente as excelências do capital porque desta forma o PD vai concluir sua projeção social-democrata, para assumir, concretamente, o caminho do social-neoliberalismo, também conhecido por Terceira Via. Se isso vai mesmo acontecer, em muitos sindicatos e, sobretudo, na central sindical CGIL e na Federação dos Metalúrgicos (FIOM), muitas carteiras do PD serão queimada em sinal de protesto. Uma contestação feita por os setores de esquerda da base operária que, porém, não modificará o rumo que o partido vai assumir.

Em linhas gerais, a possível transformação política do PD, prevê pensionar a velha guarda berlingueriana, isto é dirigentes históricos, tais como D’Alema, Veltroni, Epifani, Bersani, Finocchiaro, Rosy Bindi etc., que no PD são donos de poderosas “correntes” que controlam cerca de 68% do “aparelho partidário”.

Um problema complicado que Matteo Renzi, e, sobretudo, seus doze apóstolos da Secretaria, deverão enfrentar com muito cuidado, porque sem este 68% o PD não se movimenta e, em caso de conflito interno, pode ficar definitivamente parado por que o Partido Democrático, desde sua fundação, em 2007, priorizou profissionalizar o pessoal indicado pelas correntes, no lugar de recorrer ao voluntariado dos militantes. Desta forma, em poucos anos, o controle do partido passou nas mãos das correntes que aparentemente dizem de velar pela unidade do partido, mas, na verdade, praticam uma ferrenha luta subterrânea em todas as federações e círculos partidários.

É suficiente lembrar o famoso “caso dos 101 sabotadores”, isto é os 101 parlamentares do PD ligados às correntes que inviabilizaram a eleição à presidente de Romano Prodi, abrindo assim o caminho ao segundo mandato de Giorgio Napolitano, antigo líder da corrente “melhoradora” no então PDS (ex-PCI) e grande aliado da nomenclatura berlingueriana, liderada por Massimo D’Alema.

Mas se a situação do PD e tão imbricada por que dois milhões de eleitores do PD escolheram Matteo Renzi e não o candidato continuista, Gianni Cuperlo?

Antes de tudo por que Renzi é um candidato jovem, extremamente comunicativo, que não usa tergiversações quando fala, sabendo contentar as platéias e, então, dizer o que elas querem que seja dito. Na pratica é um populista moderno que encantou todos aqueles que perderam a confiança no PD e a esperança de governar a Itália dentro de uma ótica de esquerda. De fato, cerca da metade do eleitorado do PD é formado, por comunistas que, por absurdo, acreditam que os dirigentes que em 1989 enterraram o PCI e a ideologia do marxismo, ainda são comunistas! Um equivoco político e histórico que se consolidou a partir de 1994, em função da grande saudade pelo PCI e pela incapacidade de Pietro Ingrao e dos dirigentes do PRC (Partido da Refundição Comunista) de refundar o Partido Comunista Italiano.

Ao analisar o complexo cenário de crise do PD é preciso dizer que a vitória de Matteo Renzi foi um mal inevitável para a salvação desse partido, visto que D’Alema ou Bersani nunca conseguiram que o PD fosse um verdadeiro partido social-democrata e também Veltroni nunca conseguiu transformar o PD em um partido liberal-democrático clintoniano. De fato, o próprio D’Alema, líder da maior corrente do PD, admitiu que “…a vitória de Matteo Renzi permitirá ao PD de recompor os laços de confiança com o eleitorado e assim afastar a grave crise que havia submergido o PD nesses últimos dois anos”.

Será, portanto, nesta base, que nos próximos meses os líderes das correntes deverão fechar um acordo tácito com Renzi, do momento que o PD deve sustentar o governo de amplias coligações de Enrico Letta pelo menos até julho de 2014, visto que aos 22 de junho se realizarão as eleições européias.

Eleições que o PD deve absolutamente ganhar para dar oxigênio político ao governo liderado por Enrico Letta e, conseqüentemente marcar as eleições legislativas somente em maio de 2015.

Para garantir essa agenda é preciso que o novo secretário do PD, Matteo Renzi, trabalhe em concomitância com o primeiro ministro, Enrico Letta, o presidente da República, Giorgio Napolitano e a Secretária Geral da central sindical CGIL, Susanna Camusso. Isto é dar continuação, em nível econômico e financeiro, aos laços de dependência que a Itália mantém com a Troika (FMI, Banco Mundial e BCE). Em nível político, o governo e o PD deverão respeitar todos os parâmetros de austeridades fixados pela BCE, e implementar as diretivas da União Européias para abaixar a dívida pública que alcançou 132% do PIB. No que diz respeito ao contexto geoestratégico da região mediterrânea as regras serão sempre ditadas pelos generais do Pentágono e da OTAN.. Questões que Matteo Renzi, nunca questionou, nunca criticou, e que nunca se atreverá a por em discussão na reunião de Secretaria do PD.

O 9º Congresso do PRC que a mídia ignorou

Pela primeira vez, nos últimos vinte anos de história do jornalismo político italiano, todos os órgãos da grande mídia, seja ele jornal, revista, rádio, televisão ou até webtv, censuraram o PRC (Refundição Comunista),  recusando-se de escrever uma única linha sobre o 9º Congresso desse partido. Não é exagero mas, sim, a simples verdade, visto que até dia 10 nenhum jornalista do progressista diário La Repubblica criticou os “cripto-comunistas do PRC”, como sempre faz e nenhum editor do “L’Unità” (o jornal do PD) repetiu os maldosos comentários, com os quais esse jornal sempre atacou o PRC .

Praticamente ninguém veiculou a miserável notinha com 250 caracteres para dizer que “…de 6 a 8 de dezembro se realizou em Perugia o Congresso do PRC (Partido da Refundição Comunista), que nesses últimos dois anos sofreu 5 cisões e uma volumosa sangria de militantes, que determinaram o rebaixamento eleitoral a menos de 1,5%…”

O motivo é simples, talvez o de sempre: as excelências da direita, do centro-direita e do centro-esquerda, ao uníssono, decidiram que para a grande mídia ampliar, ainda mais, a crise política que Paolo Ferrero e Claudio Grassi determinaram no PRC com suas devassantes propostas eleitorais e organizativas, devia-se ignorar a realização do Congresso do PRC.

Uma situação difícil, para um pequeno partido comunista como o PRC, que não tem mais seu jornal “Liberazione”, para comunicar com o movimento e com a sociedade, não tanto por falta de dinheiro, mas por excessos de incompatibilidade política na redação. De fato, quando os conflitos políticos quebraram a unidade na Comissão Política Nacional (CPN), algumas “tendências” começaram a atuar como mini-partidos no seio do PRC, exasperando ainda mais as brigas pessoais e as pretensas “diferenciações ideológicas”, alimentando, assim, a corrida em direção da cisão. Primeiro foi SEL (Esquerda, Ecologia, Liberdade), depois foi a vez de Esquerda Crítica, a seguir foi o PCL (Partido Comunista dos Trabalhadores), e ainda Esquerda Anti-capitalista e por último foi a vez de Reconstrução do Partido Comunista!

Diante desse cenário de fragmentação política e ideológica, Claudio Grassi – líder da corrente majoritária “Reconstruir a Esquerda”, propôs neste Congresso a formação de uma “Syriza ita­liana” com a qual poder voltar no universo parlamentar e negociar uma aliança eleitoral com o PD. Praticamente Claudio Grassi sonha consolidar a formação de um novo partido federativo da esquerda alternativa, cujos principais sujeitos seriam o PRC, liderado por Paolo Ferrero, SEL (Socialismo, Ecologia e Liberdade) de Niki Vendola – que já está no Parlamento por ter apoiado o PD nas últimas eleições – e o PDCI (Partido dos Comunistas Italianos) de Oliviero Diliberto – que também apóia o PD em nível regional. Uma proposta que foi vaiada no Congresso e que mereceu uma crítica pelo próprio secretário Paolo Ferrero que, por sua parte, pretende dar uma nova identidade à esquerda italiana sem ficar atrelado ao aparelho eleitoreiro do PD e do centro-esquerda.

Porém, o que mais surpreendeu nesse congresso, do ponto de vista ideológico, foi a “Moção 3”, que é um documento político apresentado por Raul Mordenti e Andrea Fioretti, que, praticamente sintetizaram as conclusões dos debates que se realizaram nas bases (federações e círculos do PRC). Um documento, politicamente interessante, que rompeu com o falso jogo antagonista entre Paolo Ferrero e Claudio Grassi. De fato, na sua introdução a “Moção 3” rejeita e condena o conceito e a prática das tendências e auspicia a retomada do trabalho político no território para, finalmente refundar o Partido Comunista em uma ótica comunista gramsciana e não apenas parlamentarista.

A linearidade das propostas políticas da Moção 3, seu apego à ideologia marxista e a tenacidade com que foram resgatadas as idéias de Gramsci, na realidade impediram que a dupla Ferrero-Grassi verticalizassem o debate congressual em seu favor. À causa disso não houve a eleição da nova cúpula dirigente, que será realizada somente após um ulterior debate nas bases (federações e círculos). É também por isso que a “grande mídia” ignorou o Congresso e nada disse a cerca das propostas políticas da Moção 3, que, na realidade, foram o principal elemento político inovador deste 9º Congresso do PRC. Propostas que, muito provavelmente, determinarão a volta do PRC no cenário político e sua atuação como verdadeiro partido comunista italiano, com uma línea classista, anticapitalista, antiimperialista e solidário com os povos em lutas.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato

Mandela e Cuito Canavale os marcos da derrota do Apartheid

https://i1.wp.com/blackagendareport.com/sites/www.blackagendareport.com/files/imagecache/feature400/mandela_castro.jpgEscrito por Achille Lollo por Correio da Cidadania – São Paulo/Brasil

Nelson Mandela morreu vinte cinco anos após a batalha de Cuito Canavale, que na história do continente africano simboliza o marco da derrota do regime do Apartheid e do Imperialismo. De fato, os EUA e as potências européias, durante quarenta anos, ampararam política e juridicamente os arbítrios e as violações da minoria branca sul-africana em função da estrondosa riqueza do subsolo da África do Sul. Foi também para preservar essas riquezas que Ronald Reagan e seu Secretário de Estado, George Schutz tiveram que engolir dois sapos, o cubano e o angolano, e decretar aos 4 de maio de 1988, o fim da ocupação sul-africana no território da “South-West Africa” (Namíbia), para realizar eleições livres, que a SWAPO ganhou com ampla maioria, podendo, finalmente, proclamar, em 1990, a independência da Namíbia.

Assim, com quase doze de atraso e milhares de namibianos mortos, encarcerados, torturado e exilados, a resolução 435/78 das Nações Unidas foi implementada, criando um novo cenário político na África Austral que o Império nunca mais com seguiu controlar. De fato, Mandela, apesar de estar preso em Robben Island, após o desfecho de Cuito Canavale e a proeza realizada na Cahama pelas forças cubanas, conseguiu fazer chegar a Joe Slovo – o único membro ainda em liberdade do Estado Major do braço armado do ANC (Umkhontoata we Sizwe – Lança da Nação) a ordem para criar em todo o país um clima político insurrecional promovendo grandes e continuas manifestações de massa. Nelson Mandela, entendeu que se a derrota da SADF em Cuito Canavale, havia, finalmente, aberto a estrada à independência da Namíbia, também na África do Sul havia, finalmente, chegado o momento para o ANC chamar o povo sul-africano a desafiar o establishment do Apartheid, com a realização de continuas mobilizações nos bairros negros e manifestações nos centros das cidades.
Hoje, a “grande mídia” comemora a morte de Mandela de forma extemporânea, apresentando-o não como o chefe da resistência armada do ANC, mas, sim, como o gentil e dócil colaborador sul-africano que teria dado continuidade ao sistema de exploração mineira e industrial. De fato, a África do Sul, como antes dela a Namíbia e o Zimbábue, não ficou refém da guerra civil que o Império, através da direita participação conspiratória do regime de Apartheid, provocou em Angola e depois em Moçambique.
Nelson Mandela sabia, muito bem que: 1) Em 1990, o ANC, política e sobretudo militarmente nunca poderia suportar os efeitos destruidores de uma guerra civil a longo prazo, pela qual grande parte da minoria branca estava preparada; 2) O acordo quadripartido (Angola, Cuba, EUA e África do Sul) assinado em Nova Yorque aos 4 de maio de 1988, fixava em dois anos a retirada do contingente cubano de Angola e em um ano a saída dos batalhões sul-africanos da Namíbia, fazendo, assim aumentar a presencia da SADF (exército) nas províncias da RSA mais urbanizadas; 3) O presidente da URSS, Mikhail Gorbatchov e sobretudo seu ministro das relações exteriores, Eduard Shevernadze, eram totalmente contrários que o ANC organizasse a insurreição do povo negro nas principais cidades da RSA; 4) Lembrando também que Shevernadze batteu o pé, quando Fidel ordenou ao comandante das FAR cubanas em Angola, Arnaldo Ochoa Sanchez, de manter-se preparado para continuar a ofensiva, a partir de Cahama, contra as unidades do exército sul-africano no norte da Namíbia.

1988: Cuito Canavale e Cahama quebram o mito do exército racista

A batalha de Cuito Canavale começou em 15 de novembro de 1987 e acabou aos 23 de março de 1988 com o desfalecimento orgânico das unidades da UNITA, que nessa batalha perdeu oficialmente 3.980 homens. Porém informações fidedignas relatam que mais de 2.500 “soldados da UNITA morreram nos rios e nas lagoas e seus corpos nunca foram recuperados”. Outros 1.500 se entregaram e cerca de 8.000 soldados ficaram feridos e evacuados para a Namíbia, a maioria deles com pernas amputadas à causa da explosão das minas anti-homem. Por sua parte, o general Magnus Malan, Ministro da Defesa sul-africano, nas suas memórias escreveu que, durante quase um ano de operações de guerra na região de Cuito Canavale morreram, apenas, 39 soldados sul-africanos!
De fato, o general não revelou que a “Operação Hooper”, havia sido planejada para salvar fisicamente a UNITA entrincheirada em Mavinga e que o Estado Major sul-africano havia transferido para o sul de Angola as melhores unidades do exército equipadas de tanques Olifant e Ratel; numerosas baterias moveis anti-aéreas; as rampas de lançamento dos mísseis Cactus e Tigercat; mais dois batalhões de artilharia armada com os poderosos canhões G5 de 155mm, capazes de disparar seu projétil até 40Km. Também, em suas memórias o general não especificou que a maior parte dos soldados que a SADF utilizava em operações fora dos confins sul-africanos eram mercenários estrangeiros, cujo massivo recrutamento, iniciou em 1975, com a criação do Batalhão 32 “Buffalo”. Na realidade os mortos dessa Legião Estrangeira do exército sul-africano nunca resultaram nas listas dos soldados sul-africanos mortos em combate, pelo fato de ser estrangeiros e mercenários.
É preciso lembrar que o elemento estratégico mais dinâmico do regime de Apartheid foi transferir os conflitos armados para além de suas fronteiras e localizá-los diretamente nos territórios do inimigo. Assim foi em Angola, quando, em 1981, as unidades regulares da SADF e os mercenários do Batalhão 32 “Buffalo” invadiram o sul do país, ocupando uma longa faixa no sul das regiões de Cunene e de Huila, até serem derrotados em Cahama pelas FAPLA angolanas e as FAR cubanas.
Em Moçambique, a SADF criou e sustentou a RENAMO durante doze anos, com o único objetivo de pressionar o governo moçambicano e o partido FRELIMO em não ajudar militarmente o ANC e antes dele o ZANU e o ZAPU do Zimbábue (ex-Rodesia).
Em 1986, o general Malan submeteu à “eminência parda do Apartheid”, o Ministro das Relações Exteriores Pik Botha, o projeto de reforçar a presença militar da UNITA de Savimbi, em Mavinga, para permitir aos parceiros europeus da África do Sul (França, Grã Bretanha, Bélgica e Alemanha) de apoiar as tentativas de Ronald Reagan em deslanchar o líder da UNITA, Jonas Savimbi, em nível internacional através da interposição de Freedom House, que qualificava Mavinga um mini-estado rebelde governado pela UNITA no seio de Angola e portanto digna de um debate nas Nações Unidas.
Para evitar isso o Estado Major das FAPLA , em 1987, lançou uma ofensiva conseguindo cercar Mavinga. Porém, para evitar a possível morte ou captura de Savimbi, o Ministro da Defesa sul-africano, general Magnus Malan lançou a “Operação Hooper’, empregando cerca de 20.000 homens, com 500 tanques Olifant e Ratel, e o melhor da aviação de guerra sul-africana, que de fato provocou a retirada das quatro brigadas angolanas até a cidade de Cuito Canavale.
É nesse momento que Fidel Castro começou a jogar um papel determinante em termos políticos e estratégico mundial, inclusive por que não acreditava muito na “mala suerte de los assessores soviéticos”. De fato, não era a primeira vez que Fidel e Raul Castro tiveram que emendar erros táticos, operativos e sobretudos estratégicos cometidos pelos “camaradas generais soviéticos”. Por isso, Fidel comunicou ao presidente de Angola, Eduardo Dos Santos, que Cuba tomava o comando das operações para derrotar os sul-africanos em Cuito Canavale.
Assim, a famosa Divisão 50, e outras unidades de especialistas das FAR, além dos melhores pilotos de Mig 23 desembargaram em Luanda para integrar no sul do país uma linha de defesa que somava 40.000 cubanos, 60.000 angolanos e 10.000 soldados da SWAPO. Conseqüentemente, os generais cubanos, Arnaldo Ochoa e Cintra Frias alinharam na região de Cuito Canavale cerca 1000 Tanques T54/55, enquanto 300 helicópteros e 200 Mig 23 ficavam estacionados na base de Menongue, para depois ganhar todos os combates com os Mirages sul-africanos.

As crônicas das batalhas e a análise dos documentos militares sul-africanos e cubanos demonstram, sem sombra de dúvida, que a “Operação Hooper” depois do inicial sucesso nos redores de Mavinga, se transformou em um autêntico desastre político e militar, visto que os comandantes cubanos Ochoa e Cintra Frias ao fingir a retirada, atraíram as colunas de tanques e blindados sul-africanos e os homens da UNITA em um funil onde passaram a ser alvejados pelos canhões de 120mm e os foguetes S-25 (SAM Guild) e Strela 1 (AS-9 Gaskin) tendo como única saída os mortíferos campos de minas.
Segundo o presidente angolano, Eduardo Dos Santos, “com a vitória em Cuito Canavale e as medidas tomadas posteriormente foram eliminados os principais fatores externos que ainda condicionavam o conflito em Angola e abriu-se uma via favorável à sua resolução interna”. De fato, foi a partir desse momento que o Sub-Secretário dos EUA para as questões africanas, Chester Croker, começou a querer negociar com a Republica Popular de Angola o fim do conflito.
Aos 10 de março os jornais do mundo inteiro veicularam que os 15.000 soldados cubanos que estavam de prontidão na capital da região de Huila, Lubango, haviam sido transferidos por ordem dos generais Cintra Frias e Miguel Lorente Leon, até Cahama, onde os especialistas cubanos haviam criado, em apenas dois meses, uma pista para os Mig-23, outras duas para os helicópteros e uma base militar inteiramente subterrânea. Outra base com semelhantes particularidades estava sendo construída mais à sul em Xangongue, a menos de 200 quilômetros da fronteira com a Namíbia. Por duas vezes, os sul-africanos tentaram impedir essa concentração de tropas cubanas, mas, nada puderam fazer contra a supremacia da artilharia cubana e dos Mig-23, que, em resposta, foram bombardear os quartéis da SADF em Calueque, em território namibiano.
Diante da possível invasão dos 10.000 combatentes da SWAPO, apoiados pelos 40.000 cubanos que começavam a entrincheirar-se ao longo da fronteira namibiana, Chester Croker convenceu George Schutz e o presidente Reagan de que o principal objetivo era evitar a entrada dos cubanos na Namíbia. Por isso, era necessário iniciar imediatamente as negociações com Angola, negociando e aceitando todas as reivindicações da SWAPO. Assim, em menos de dois meses, os negociadores de EUA, África do Sul, Angola e Cuba, se encontraram primeiro no Cairo, depois em Londres e por fim em Nova Yorque, onde aos 4 de maio foi assinado o acordo de paz com base a implementação da resolução da ONU 438/78.

O desmanche do regime de Apartheid

É evidente que a batalha de Cuito Canavale e depois o acordo para a independência da Namíbia quebram os principais conceitos políticos e geoestratégicos do regime de Apartheid. Nas mãos do sucessor do ultra-conservador Pieter Botha, Willem de Klerk, permaneceu, apenas, a opção de uma resistência militar com a explosão de uma guerra civil que podia degenerar no extermínio da minoria branca e a destruição de um rico e poderoso parque industrial. De fato, o Ministro da Defesa Malan tentou cavalgar por certo tempo, essa opção colocando os mercenário do Batalhão Búfalo na repressão das manifestações nos centros urbanos e nos bairros negros das periferias das grandes cidades. Mas os resultados eras sempre os mesmos: mortos, feridos, jovens presos e o dia seguinte mais manifestações para lembrar quem morreu, quem foi ferido quem estava sendo torturado nas prisões!

O povo negro da África do Sul voltou a ocupar as ruas e a enfrentar a polícia por que Cuito Canavale e Mandela haviam quebrado o mito da imbatíbilidade do regime de Apartheid. Havia a certeza de que aquela era uma luta justa, por isso ninguém recuava quando apareciam os blindados do Exército ou da polícia sul-africana. O motivo do atrevimento político por parte dos jovens sul-africanos era a extrema certeza de que estavam lutando para acabar com o Apartheid, mesmo sem ter canhões e tanques. E foi por isso que o regime de Apartheid foi derrotado, obrigando o presidente Willem de Klerk em assinar a lei que aos 2 de janeiro de 1990 legalizava o ANC, o PAC, o Partido Comunista Sul-africano e todos os outros organismos anteriormente proibidos. A seguir veio a lei que libertava os presos políticos e por fim a negociação com Mandela sobre a transição.

Depois de dezoito meses de intenso debate e preparação, o novo parlamento sul-africano aprovou o Ato de Promoção da Unidade e Reconciliação Nacional, que estabelecia a Comissão de Verdade e Reconciliação. Em 1995, a comissão foi chefiada pelo arcebispo Desmond Tutu. As audiências para ouvir o testemunho de mais de 23 mil vítimas e testemunhas começaram em 1996 e acabaram em 1998 com a publicação dos trabalhos em cinco volumes.
Na Comissão de Verdade e Reconciliação, que foi muito criticada por oferecer a anistia aos agentes da opressão, prevaleceu a idéia de recorrer à justiça restaurativa e não à retributiva. Apesar da anistia, o reconhecimento da verdade e a rejeição social dos atos cometidos funcionaram como um processo de reprovação moral. O arcebispo anglicano Desmond Tutu, um dos maiores defensores das comissões de verdade e da justiça restaurativa, ressaltou que esta visão é baseada não só em idéias cristãs de perdão para aqueles que reconhecem seus erros, como também no conceito indígena africano de ubuntu. Pois, segundo o arcebispo Desmond Tutu “…a concepção de “ubuntu” está ligada à busca por harmonia social visto que um ser humano só é um ser humano por meio de outros e, se um deles é humilhado ou diminuído, o outro o será igualmente. É praticamente a idéia de compartilhar e de pertencer a uma comunidade…” (Tutu, 2000, p. 35,).

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do “Correio da Cidadania”

Nelson Mandela e a derrota do regime de Apartheid

Tal como Agostinho Neto, Amilcar Cabral e Samora Machel, Nelson Mandela nunca aceitou renegar publicamente a luta de libertação na África do Sul para receber em troca a liberdade. Uma oportunidade que, em 1985, o regime de Apartheid lhe ofereceu. Porém, Mandela não traiu seus ideais e disso poucos se lembram disso.

Achille Lollo (ROMA) — Em novembro de 1976, Joe Slovo, se encontrou com os primeiros militantes sul-africanos do ANC que estávamos treinando no campo da Funda, a 30 Km de Luanda, capital da República Popular de Angola. Um encontro que, evidentemente, por motivos de segurança não foi veiculado, inclusive por que Joe Slovo estava na lista dos “comunistas que deviam ser eliminados” – tal como aconteceu em Maputo com sua mulher Ruth First. Assim, no campo de treino da Funda ficou fortalecida a decisão política do Estado Major do  Umkhonto we Sizwe (braço armado do ANC) em aproveitar a recém libertação de Angola para começar a treinar em moldes de guerrilha organizada os militantes que deviam fugir d África do Sul. Naquela reunião, Joe Slovo lembrou aos jovens aspirantes guerrilheiros – alguns com apenas 16 ou 17 anos – que eles “…estavam em Angola para trilhar o caminho que o camarada Nelson Mandela havia iniciado logo após o massacre de Sharperville em 1960 – e finalizando sua intervenção pedia de lembrar que – …. a palavra de ordem era lutar, lutar, e nunca para de lutar até acabar com o regime de Apartheid...”.

Hoje, somente três qüinquagenários daquele batalhão de 115 aspirantes guerrilheiros, podem lembrar que cumpriram com a palavra d’ordem do MK (Umkhonto we Sizwe) e com o compromisso político que assumiram com Nelson Mandela para derrotar o Apartheid e criar a nação sul-africana.

Na realidade, esse compromisso sofreu dois desdobramentos. Um de âmbito internacional e outro em nível nacional que condicionou o processo intentado contra o Apartheid, delimitando, assim, a construção da nação sul-africana tal como Mandela havia teorizado.

Sem dúvida a sabotagem à central do Sasol, realizada por um grupo especial do MK (Umkhonto we Sizwe, onde o regime de Apartheid estava testando a tecnologia para poder sobreviver ao embargo petrolífero e, a seguir, a grande batalha em Kuito Canavale, no sul de Angola, onde os batalhões das FAPLA (Exército angolano) e as unidades do corpo expedicionário cubano derrotaram o exército sul-africano, foi o primeiro golpe mortal que o Apartheid sofreu.

O segundo foram as inúmeras manifestações que aconteceram em todo o território da África do Sul, com o objetivo de querer mesmo derrubar o regime, mesmo se naquele momento não havia armas e munições para o fazer. De fato, o MK (Umkhonto we Sizwe) e o PAC haviam muito bem organizador a rebelião em termos políticos nos subúrbios das grandes cidades, mas não haviam conseguido criar os “territórios libertados”, a partir do qual promover o cerco militar ás cidades. Pois, este era o velho projeto político-militar que o Estado Major do MK (Umkhonto we Sizwe), formado por Nelson Mandela, Joe Slovo e Walter Sisulu, não conseguiu materializar, porque a força dos batalhões de contra-insurgência do exército sul-africano, as unidades de rastreamento do serviço secreto, os grupos especiais da policia territorial conseguiram criar uma cortina ao redor das fronteiras nacionais e regionais. Poucos, muitos poucos conseguiram furar essas linhas de defesa, que, porém, se tornaram obsoletas quando a rebelião popular explodiu em todos os perímetros urbanos de uma forma incontrolável, apesar dos mortos, dos feridos e das prisões.

As lutas e as negociações

O presidente sul-africano Frederik Willen de Klerk, aos 11 de fevereiro de 1990, determinou a libertação de todos os presos políticos começando a negociar o futuro do país com Nelson Mandela. Uma negociação que iniciou por que a evolução da conjuntura sul-africana e a determinação política dos 9 países da África Austral  (Angola, Moçambique, Zimbábue, Tanzânia, Zâmbia, Botsuana, Lesotho, Suazilândia e Malaui) obrigou os estrategistas do capitalismo mundial a sacrificar o regime do Apartheid para garantir a manutenção na África do Sul de um sistema de industrialização mineira, que é um dos mais rico do mundo e que, em termos econômicos tinha a potencialidade de controlar as economia de todos os países da África Subsaariana.

Uma constatação que Nelson Mandela entendeu e utilizou para construir a nova nação sul-africana dando à população negra a oportunidade de ser cidadão de verdade dessa nação, além de criar vários instrumentos institucionais capazes de fazer respeitar o conceito de democracia, de liberdade e de igualdade.

Muitos se perguntam, hoje porque o ANC e seu braço armado o MK (Umkhonto we Sizwe), não atacaram o que restava do regime de Apartheid. Muitos acham que Mandela e Oliver Tambo desabrocharam quando deviam endurecer no lugar de aceitar as condições fixadas pelo império.

O próprio Nelson Mandela reconhece que ele mesmo cometeu erros quando foi finalizada a Comissão para a Verdade e a Reconciliação (Truth and Reconciliation Commission, TRC), onde com uma simples declaração de culpa os torturadores, os policiais e os políticos ganharam outra oportunidade de vida na nova republica sul-africana.  O problema, é que Mandela, bem como Oliver Tambo, sabiam que no seio da população negra havia uma pequena burguesia criada pelo próprio Apartheid que queria ser e fazer apenas o que a burguesia branca fazia. Eles sabiam que também no seio do ANC se havia consolidado a formação de uma nomenclatura negra que desejava, apenas, uma parte do poder dos brancos ou das oportunidades oferecida pelo sistema capitalista. Eles sabiam que mesmo se os brancos aceitassem de se retirar, os representantes dos setores negros progressistas não eram em quantidade suficiente e, sobretudo não tinham a capacidade de assumir de um dia para outro a direção do sistema industrial e do financeiro. Eles sabiam também que o ANC e, sobretudo, seu braço armado o MK (Umkhonto we Sizwe), não havia quadros para substituir os brancos no exército, na polícia, nos serviços secretos, na aviação e na marinha militar. Além disso, Nelson Mandela sabia, muito bem que em 1991, apesar do fim da guerra fria, o mundo capitalista não teria permitido que a África do Sul seguisse a mesmo conturbado caminho do Zimbábue ou de Angola ou de Moçambique com uma interminável guerra civil.

Nelson Mandela foi, de fato, o presidente do ANC até 1999 e apesar da cara sorridente com todos, conhecia muito bem os efeitos e os problemas da conjuntura internacional e, sobretudo, da sul-africana. Por isso tentou obter o melhor do que podia para o povo negro da África do Sul. Talvez um dos erros cometidos na negociação foi de ter deixado aos herdeiros do Apartheid demasiada liberdade no controle do poder econômico. Talvez foi concedida demasiada abertura para influenciar as normas e as leis do novo estado. Talvez….

Mas será que todo o povo negro sul-africano, com suas etnias, com a eterna divisão entre Xhosas, Sothos, Zulus, Shangans e Pondo estava dispostos em construir uma nação sul-africana como o ANC apontou em 1965, quando optou pela luta armada, enquanto os regentes dessas etnias continuaram a querer sobreviver com as migalhas que o sistema do Apartheid lhe oferecia? Acredito, como muitos também afirmam, que a situação histórica e política da Palestina e o comportamento da ONU e de todos os países do Ocidente que sempre estiveram em favor de Israel, foi um exemplo que Nelson Mandela não deixou escapar. Pois, apesar de ter recebido todos os prêmios, as medalhas e as condecorações por parte dos antigos inimigos e detratores ele nunca rejeitou seu passado de comandante do Umkhonto we Sizwe.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.

Líbia implodiu a democracia criada com a “guerra humanitária” da OTAN

https://i1.wp.com/www.analisidifesa.it/wp-content/uploads/2013/11/mappa-libia-cirenaica3.jpgEscrito por Achille Lollo – Quarta, 27 de Novembro de 2013 – Correio da Cidadania/São Paulo-Brasil

A mídia europeia e a estadunidense se aproveitaram do final positivo das negociações entre os EUA e o Irã sobre a normalização do uso de urânio nas centrais nucleares iranianas, para reconstruir o “glamour” político do presidente Barack Obama. De fato, nos últimos seis meses, a imagem política de Obama caiu bastante, em função dos erros de avaliação política cometidos no Oriente Médio, primeiro por Hillary Clinton e depois à causa das péssimas opções geoestratégicas adotadas por John Kerry na Síria, no Afeganistão e, em particular, na Líbia, onde o primeiro-ministro, Ali Zeidan, além de enfrentar, com poucos resultados, uma dificílima situação econômica, agora deve resolver dois complicados problemas institucionais.

Primeiro com o Fezzan, que requerer mais autonomia administrativa do governo de Trípoli, e, em segundo lugar, com a Cirenaica, que já anunciou a ruptura política e institucional, exigindo a criação de um Estado federal para legitimar seu governo formado com 26 ministros e, consequentemente, negociar a venda do petróleo e do gás extraído na Cirenaica, sem a intermediação dos burocratas de Trípoli.

Em poucas palavras, um desastre para a geoestratégia da Casa Branca que, no lugar de antecipar os eventos, agora é, praticamente, obrigada a correr atrás deles para evitar o pior. Por exemplo, no Egito, os EUA sustentaram Mubarak até o fim, desatendendo ao que estava acontecendo na Praça Tahir. Depois, cederam às pressões da Arábia Saudita e do Qatar e apoiaram a Irmandade Muçulmana, legitimando a eleição fajuta de Mohamed Morsi como presidente. Quando os militares intervieram para evitar a bancarrota e a islamização do Egito, emprisionando o presidente Morsi e toda a direção da Irmandade Muçulmana, a Casa Branca ficou muda. Depois, fixou uma temporária suspensão para os financiamentos ao exército egípcio (1,6 U$D bilhão) e, quando ficou evidente que a Arábia Saudita apoiava os golpistas, John Kerry foi Ao Cairo e normalizou as relações, como se nada tivesse acontecido!

É evidente que a ziguezagueante atuação da Casa Branca estimulou no Oriente Médio diferentes reações. Por exemplo, em Israel, o governo sionista liderado por Benjamin Netanyahu se aproveitou para realizar a construção de 1500 apartamentos na parte palestina de Jerusalém, para depois querer extrapolar com a construção de mais 24.000 apartamentos na Cisjordânia, provocando a dura reação de Abu Mazen da ANP, que ameaçou abandonar a mesa das negociações. Diante disso, Obama fez a voz grossa com “Bibi” (isto é Benjamin Netanyahu), que prometeu parar os projetos de colonização apenas na Cisjordânia.

No mundo islâmico Obama é cada vez mais desacreditado e desconceituado por ser vítima do que poderíamos chamar a “síndrome dos Clinton”, isto é: o conjunto de características diplomáticas e militares ou de sinais geopolíticos associados a uma condição política crítica, suscetíveis de despertar reações de temor e insegurança.

Elementos que se enquadram perfeitamente na difícil e trágica evolução da conjuntura política da Líbia, visto que:

1) O presidente Barack Obama pediu, em setembro, ao primeiro ministro italiano Enrico Letta: “…considerar a necessidade de a Itália se manter pronta a intervir na Líbia e garantir a estabilidade no aproveitamento dos recursos energéticos (petróleo e gás), além de colaborar na reconstrução do exército, da polícia e da estrutura administrativa…”. Um pedido que nunca será atendido pelo governo italiano, que não quer repetir o fracasso da intervenção na Somália, visto que as milícias mobilizam 230.000 homens armados, dos quais 150.000 em Trípoli.

2) No passado dia 10 de outubro, o primeiro-ministro Ali Zeidam foi sequestrado por uma milícia ligada ao Ministério de Interior para obter dele uma “demissão voluntária”. Algo que não aconteceu porque intervieram os homens da milícia de Mesurada que o próprio primeiro-ministro havia contatado com uma “doação” de um milhão de dólares.

3) Aos 13 de novembro, vários deputados promoveram uma greve e várias manifestações em Trípoli, aparentemente organizadas para denunciar a violência das milícias. Na verdade, no dia 15, os manifestantes tentaram atacar o prédio onde estavam aquartelados os milicianos de Mesurada, aqueles que haviam salvado o primeiro ministro. Vendo-se cercados, os milicianos reagiram com selvajaria, matando 67 pessoas e ferindo mais de 500 manifestantes. A seguir, o “Conselho dos Sábios” de Mesurada ordenou a saída da milícia de Trípoli juntamente com todos os deputados de Mesurada.

4) No dia 23, cinco dias após a proclamação da “autonomia política e econômica” da Cirenaica, o governador militar de Bengase, Abdullah Al-Saiti, declarou o “estado de sítio” para reagir aos ataque dos milicianos da Ansar Al Sharia (fundamentalistas islâmicos salafitas). Por isso, o primeiro ministro Ali Zeidan foi logo nos EUA para pedir uma possível intervenção dos EUA e da OTAN, obtendo apenas promessas e condenações verbais dos separatistas.

O Pentágono não quer deslocar tropas na Líbia

Os generais do Pentágono descobriram que na Líbia os EUA estão repetindo o mesmo erro que o governo Bush cometeu no Afeganistão com os Talebani e Osama Bin Laden. Quer dizer: os emissários de Hillary Clinton usaram muita leviandade e dólares para cooptar as lideranças dos grupos do fundamentalismo islâmico (jihadistas, salafitas, irmandade muçulmana e outro radicais sunitas), para mover uma “guerra santa” contra Gheddafi e seu exército.

Um conflito onde as múltiplas operações realizadas pelos caças-bombardeiros dos países da OTAN, o uso maciço dos foguetes lançados dos navios da Sexta Frota para destruir as infraestruturas civis e militares e as missões secretas dos grupos especiais britânicos, franceses, qatorianos e sauditas caracterizaram a dinâmica dessa “guerra humanitária”. Por sua parte, o “exército rebelde”, após a eliminação dos últimos núcleos de resistência do exército de Gheddafi, se fragmentou, dando vida a um conflito de baixa intensidade, onde as milícias lutam entre elas pelo controle do poder.
A presença das milícias no cenário político da Líbia, na realidade, se tornou preponderante em função da manipulação planejada e realizada pelos agentes dos serviços secretos da Arábia Saudita e do Qatar, bem como pelos representantes das diferentes facetas do universo fundamentalista (Muffits sunitas, Irmandade Muçulmana, Al Qaeda, Jihadistas, Defensores da Sharia, Salafitas etc. etc.). Um universo político que se associou aos velhos líderes das 140 tribos (também divididas em clãs familiares) se ligou aos chefes dos grupos étnicos (Cabili e Berberes) e garantiu a representatividade dos líderes dos Conselhos de Sábios de cada província e dos comitês urbanos.

Nesse confuso cenário institucional, onde a política se mistura com o islamismo, o nacionalismo é sufocado pelo fundamentalismo e as conquistas da revolução foram logo silenciadas com a possível imposição das leis da Sharia, houve também a participação das multinacionais europeias e dos serviços secretos dos países da OTAN, para sustentar a formação de uma “frente liberal”, sob a direção de Mahmoud Jibril , Mohamed Megarief e do próprio Ali Zeidan. Contrariando todas as expectativas políticas, a Frente Liberal, criada na última hora e sem grandes pretensões políticas, inesperadamente conseguiu derrotar os partidos islâmicos na primeira eleição livre realizada em 2012, após a queda de Gheddafi.

Esse fato não foi minimamente avaliado pela então Secretária de Estado, Hillary Clinton, que, no pico de sua desdenhosa arrogância, nomeou Christophens Stevens, “embaixador de paz” com a função específica de monitorar a frente liberal, com vista promover uma rápida e dinâmica ocidentalização da nova democracia líbia. Um processo que, no campo econômico, deveria promover a “privatização” da NOC-Libia (National Oil Corporation Líbia) e assim entregar às transnacionais 85% do patrimônio da indústria dos hidrocarbonetos da Líbia.

Um projeto que despertou o ódio das lideranças separatistas da Cirenaica, que decidiram bloquear o plano dos EUA, fazendo assassinar o embaixador Christophens Stevens pelos homens da milícia jihadista “Ansar Al Sharia”, quando o mesmo se deslocava em Bengase no simbólico dia de 11 de setembro de 2012. Pois, desta maneira, todo os jornais e as televisões penalizaram os jihadistas de

Bengase!
Estado Federativo?

Se o governo do primeiro-ministro Ali Zeidan quer evitar a explosão de uma incontrolável guerra civil deve, desde já, negociar a principal reivindicação do governo do novo estado de Barga (Cirenaica), cujo primeiro-ministro, Abd-Rabbo al-Barassi exige da Assembleia Nacional de Trípolia aprovação de uma lei que transforma a Líbia em um estado federal formado por três estados nacionais: Tripolitânia, Fezzan e Barga (Cirenaica).

A seguir, Ali Zeidan deve, também, negociar com Ibrahim Al Jathran, líder da milícia Hamza que ocupou militarmente os portos petrolíferos e as refinarias de Es Sider, Brega e Ras Lanuf , e mantém sob seu controle a “Petroleum Facilities Guard”, que é a empresa de segurança que controla os portos, os oleodutos, os gasodutos, as refinarias e as áreas de estocagem localizadas ao longo da costa da Cirenaica. Ibrahim Al Jathran exige do governo de Trípoli que a venda do petróleo e do gás da Cirenaica seja feito por uma nova empresa pública controlada pelo governo da Cirenaica, chamada “Libia Oil and Gas Corp”. Segundo Ibrahim, a nova empresa vai repassar aos governos de Trípoli e do Fezzan dois quartos dos valores faturados com a vendas dos hidrocarbonetos da Cirenaica.

Uma condição que coloca o governo de Trípoli no limite da bancarrota, criando as condições objetivas para a implosão da guerra civil. Porém, para fazer a guerra aos separatistas, o governo de Trípoli precisa de ter um exército preparado para isso. Um problema que o primeiro ministro Ali Zedain deve resolver o mais rápido possível, visto que em Trípoli o Ministério da Defesa recorre “aos serviços” de 20.000 milicianos, enquanto espera que da Jordânia voltem os soldados formados pelos “conselheiros” da OTAN.

Uma situação anacrônica onde Ali Zeidan nem sequer pode bater os punhos na mesa das negociações, porque o governo de Trípoli ainda não planejou a formação de um “exército nacional”, capaz de desarmar os 430 grupos armados que se consolidaram sob forma de milícias populares, mobilizando 230.000 homens, regularmente armado e com os salários em dias. Pois a primeira lei que os seis ministros do partido da Irmandade Muçulmana impuseram ao governo “democrático” de Ali Zeidan foi o “financiamento das atividades das milícias populares com 900 milhões de U$D”.
Uma lei que na realidade inviabilizou a formação de um exército regular, por dois motivos: falta de fundos e de voluntários, visto que maioria do jovens continua alistada nas milícias. Por outro lado, os 6 ministros e os deputados da Irmandade Muçulmana, bem orientados por assessores sauditas, conseguiram desarticular todos os projetos de reorganização da administração, da polícia e sobretudo do exército, fazendo votar a lei do “isolamento político”, em base à qual quem trabalhou ou apoiou o regime de Gheddafi não pode exercer nenhum tipo de chefia, cargo de responsabilidade e tampouco ser oficial do exército nacional. Uma lei que penalizou milhares de funcionários públicos e de militares que lutaram contra o exército de Gheddafi. Tanto que Mohamed Megarief, antigo embaixador líbio na Índia até 1986 e depois fundador da Frente de Salvação Nacional da Líbia, foi obrigado a se demitir do cargo de presidente da Assembleia Nacional em função da nova lei.

Porém, esse cenário político se torna complexo também para os separatistas da Cirenaica, do momento em que dos 6,1 milhões de líbios quase 3,5 milhões ficam concentrados na Tripolitania e mais da metade de 1,6 milhão de trabalhadores emigrantes – que, com a guerra, perderam o trabalho e suas poupanças -, permanecem acampados nos arredores de Trípoli. Enfim, como irá reagir esse povo quando o governo de Trípoli não puder pagar os salários e as importações dos alimentos?

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do “Correio da Cidadania”

48 bases militares dos EUA na Itália para guerrear na África e no Oriente Médio

https://i0.wp.com/www.ilpiave.it/imgart/171207/aviano.jpgEscrito por Achille Lollo para Correio da Cidadania – São Paulo/Brasil, aos 11/23/2013

Durante a guerra fria os generais do Pentágono acreditavam que a Alemanha e a Itália eram as regiões geoestratégicas mais importantes da Europa e do Mar Mediterrâneo à causa de suas características geográficas, políticas e econômicas. Por isso, até 1990, os EUA aquartelaram na Alemanha 200.000 fuzileiros e 50.000 “especialistas”, isto é: pilotos, técnicos de radares, de telecomunicações e, sobretudo, as unidades operativas dos grupos especiais. Após a reunificação alemã, somente os “especialistas” permaneceram na Alemanha.

Na Itália, o contingente de militares estadunidenses permaneceu intacto até 1990, com seus 13.000 “especialistas”. Depois, houve um aumento gradual até 2001, quando 20.000 “especialistas” operavam nas 48 bases militares (da USArmy, USAF, USNavy e da OTAN), nas 40 estações radar e centros de telecomunicações (USAF e NSA) e nos 15 depósitos e polígonos que o Pentágono obteve do governo italiano graças aos acordos bilaterais ou no âmbito da OTAN. Uma maquina bélica que, em 1999, jogou um papel fundamental na “guerra humanitária nos Bálcãs” (Bósnia, Croácia, Macedônia, Sérvia e Kossovo) para a completa desestabilização da Federação Iugoslava. É suficiente lembrar que as duas esquadrilhas de F-16 do 31º Esquadrão de Caça da USAir Force (31st Fighter Wing), em apenas 78 dias realizaram 9.000 missões de combates e bombardeios nos céus da Iugoslávia a partir da base italiana de Aviano!

Depois, em 2011, o sistema logístico e operacional criado pelo Pentágono na Itália teve uma importância decisiva na destruição do exército de Gheddafi, pois sem o suporte do referido sistema – em particular das bases de Aviano, de Pisa (Camp Darby), de Vicenza (Camp Ederle) e de Sigonella na Sicília – a aviação francesa e a britânica e os navios lança-foguetes da VIª frota estadunidenses nunca teriam conseguido bombardear sem interrupção, durante 29 dias, as cidades onde se havia entrincheirado o exército de Gheddafi.

De fato, a Casa Branca antes de criar as conjeturas diplomáticas e políticas para derrubar o governo dos Talebani no Afeganistão, para destruir fisicamente o Iraque de Saddam, para manter em estado de assédio o Irã, a Síria e o Líbano e, depois, em 2001, acabar com o regime de Gheddafi, precisava exercer o controle total no Mar Mediterrâneo e, portanto, ter a absoluta certeza de que as múltiplas operações militares não teriam comprometido a regular exportação do petróleo e do gás dos países árabes para o Ocidente.

Foi nesse contexto que a partir de 1990, todos os presidentes dos EUA aprovaram as opções geoestratégicas do Pentágono, segundo as quais a capacidade operacional do exército estadunidense em controlar o Mar Mediterrâneo passava, inevitavelmente, pela multiplicação das características operacionais das 48 bases militares italianas, pela capacidade logística dos 15 depósitos de armas e, sobretudo, pela qualidade da “espionagem” tecnológica das 40 estações radares e centros de telecomunicação, criados na Itália.

Um objetivo estratégico a quem o Congresso, desde 1992, destinou dotações orçamentárias que, em 2011, totalizaram um valor de 3 bilhões e 820 milhões de dólares. Infelizmente permanecem secretados os “investimentos ocultos ”que o Pentágono recebeu da Casa Branca para equipar as 48 bases militares italianas com “branches” para os serviços de inteligência (CIA, NSA, USArmy), departamentos logísticos para as operações secretas, comandos móveis para as missões especiais e centrais de espionagem eletrônico urbano.

Foi nesse âmbito que, em 1991, o Congresso atribuiu uma verba especial ao orçamento do Pentágono de 300 milhões de dólares, para ampliar, em Nápoles, (centro-sul da Itália) o Comando do Security Force dos Marines, o Comando da USAF (Força Aérea) para o Mediterrâneo e construir uma base para os submarinos da USNavy, inclusive com cais para os submarinos armados de foguetes com ogiva nuclear. A seguir, em 1996, foram investidos mais 400 milhões de dólares para alugar, por 30 anos, vários territórios na província de Nápoles (Capodichino e Bagnoli), onde foi construída uma base aeronaval para a USAF e um porto militar logístico, capaz de movimentar anualmente 5.000 contentores da USArmy. Além disso, em Bagnoli a USNavy construiu o principal centro de coordenação das atividades de telecomunicação para o controle do Mar Mediterrâneo.
Também no nordeste italiano – à 500 km da fronteira com a Iugoslávia – o Pentágono investiu pesado destinando, em 1992, 305 milhões de dólares para a modernização da base aérea de Aviano.

Depois, em 2004, mais de 115 milhões foram investidos para permitir a aterrissagem nesta base aérea dos bombardeiros estratégicos armados com bombas nucleares, os grandes aviões-radar, os caças-interceptadores, além de transferir das bases aéreas da Alemanha grande parte das esquadrilhas de caças-bombardeiros de F-15 e F-16. Foram também construídos silos subterrâneos para 40 dos noventa foguetes nucleares que os EUA estacionaram (ainda hoje) na Itália desde o início da “Guerra Fria”.

Mas, foi a dramática evolução das crises políticas no Oriente Médio e a perspectiva de dever patrulhar ostensivamente os céus e os mares da África do Norte, que obrigou o Pentágono a gastar mais dois bilhões de dólares na construção da maior base logística do Mar Mediterrâneo, chamada de “Camp Darby” e localizada entre Pisa e o porto de Livorno (região Toscana, no centro da Itália). Uma base que o Setaf, administra fora da jurisdição italiana, com 1.400 “especialistas’ do 31st Munitions Squadron, estocando nos 125 depósitos subterrâneos uma reserva estratégica de armas e munições, capaz de municionar todas as unidades do exército e da força aérea dos EUA que operam na região mediterrânea durante seis meses de conflito. Além disso, em Coltano, foi instalada a maior central européia de “espionagem eletrônico”, onde os técnicos da NSA podem copiar todas as telecomunicações captadas na região mediterrânea.

Em Vicenza (região do Veneto, na Itália do Norte) o Pentágono criou outra grande base aérea, denominada “Camp Ederle” onde operam 2.000 “especialistas”. Nessa base foi instalado o Comando da Setaf da USArmy para dirigir as unidade estadunidense aquarteladas na Itália, na Grécia e na Turquia. A seguir, também a OTAN escolheu “Camp Ederle” para fixar seu Comando Geral Operativo. Em 2008, “Camp Ederle”, apesar dos protestos da população de Vicenza, foi novamente ampliado para permitir à Quinta Força Aérea Tática da USAF de manusear os bombardeiros armados com bombas nucleares além de estocar nos depósitos subterrâneos da base mais 40 ogivas nucleares.

Entretanto, a presencia militar dos EUA na Itália aumentou sensivelmente a partir de 2001, quando George W. Bush decidiu promover o conflito contra os “estados canalhas” (produtores de gás e petróleo) e, assim, legitimar no Ocidente o alcance de uma nova geopolítica energética. Foi dentro dessa lógica que o Departamento de Defesa da Casa Branca e os generais do Pentágono argumentaram que antes de mover qualquer tipo de ação militar contra o Iraque de Saddam Hussein era necessário criar no Mar Mediterrâneo uma poderosa base aéreo-naval capaz de monitorar, em todos os sentidos, as operações no Oriente Médio e na África do Norte.

Por isso, o Congresso aprovou o investimento de 300 milhões de dólares para transformar a base italiana de Sigonella (na ilha da Sicilia) em “Sigonella Naval-Air Station”, evidentemente desligada de qualquer tipo de jurisdição territorial com a Itália. Em 2002, essa base começou a ser usada para dirigir o aviões sem pilotos (drones) Global Hawk. A seguir, em 2003, vieram os aviões P-3 para realizar a espionagem eletrônica em altura atmosférica com seus scanners de altíssima resolução óptica. Depois, em 2008, o governo Berlusconi assinou com o chefe da AFRICOM, general Willian E. Ward, um “acordo secreto” que permitiu à USAF de instalar na base de Sigonella o comando operacional de todos os drones estadunidenses que deviam operar no Mar Mediterrâneo, na África no Norte, no Oriente Médio e no Afeganistão. Enfim, em 2009 o Comando da AFRICOM inaugurava em Sigonella a “escola de anti-terrorismo” para os militares e policiais de Botsuana, Gibuti, Burundi, Uganda, Tanzânia, Quênia, Tunísia e Senegal.

Sempre em 2008 numa apresentação na Universidade Nacional de Defesa, o segundo comandante do AFRICOM, o Vice Almirante Robert Moeller, declarava que “…a África tem uma importância geoestratégica cada vez maior para os Estados Unidos e o petróleo é um fator chave, porém o principal desafio para os interesses estratégicos norte-americanos na região é reduzir a crescente influência da China na África”.

Uma declaração que sintetizava as conjeturas políticas e estratégicas que os colaboradores de Obama estavam criando para poder derrubar o regime de Gheddafi.

Hoje, a base de Sigonella está novamente de alerta geral à causa da crise política que explodiu na Líbia entre as “milícias jihdaistas” – antigos aliados dos EUA no derrube de Gheddafi – e os “países amigos” da OTAN. De fato, em menos de um ano as milícias atacaram o consulado dos EUA em Bengase, aos 11 setembro de 20012, matando o embaixador, Chris Stevens; depois atacaram em Trípoli as embaixadas da França e da Itália. Mais recentemente seqüestraram o primeiro ministro, Ali Zeidan, para depois sabotar gravemente o terminal petrolífero de Mesurada onde operavam os técnicos italianos da ENI.

Um caos político e institucional agravado pela queda na produção petrolífera, que, durante o governo de Gheddafi tocava os quatro milhões de barris por dia, enquanto, hoje, nem chega aos 150.000. Um bom motivo para os EUA começar novamente a planejar nas 40 bases aéreo-navais que tem na Itália outra “…guerra humanitária para livrar a Líbia dos terroristas de Al Qaeda!”.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do “Correio da Cidadania”

Crise na Europa: decomposição da União, desagregação da Direita e profunda transição na Esquerda

http://www.sedufsm.org.br/inc/fotoresize.php?imagem=http://www.sedufsm.org.br/midia/2012/03/F23-943.jpg&tmh=400Entrevista de Achille Lollo com o Professor Osvaldo Coggiola

O que é hoje a Europa? O que sobra do projeto político institucional que na de cada de noventa fez tremer os Estados Unidos, do momento que com o novo bloco de nações européias poderia ter surgido uma nova potência financeira, industrial, e militar capaz de por em discussão a própria essência do imperialismo estadunidense, enfraquecido com a crise do dólar, e assim contribuir a rediscutir os elementos geo-estratégicos conflituais no mundo. Porém, nada disso aconteceu e, hoje a União Européia, mergulha em uma profunda crise sistêmica que ainda não tocou o fundo porque o governo da Alemanha impediu  a queda e a dissolução do bloco europeu. 

Argumentos que o professor da USP Osvaldo Coggiola –   convidado por falar dos processo políticos da América Latina em diferentes eventos realizados em Roma e Napoles – abordou na entrevista que Achille Lollo, realizou em Roma para o jornal Brasil De Fato

Brasil De Fato — Nos últimos anos, a maior parte dos países da União Européia sofreram com uma crise que não é apenas financeira, mas, sobretudo,  econômica, política e social. Uuma crise que  recolocou em discussão o conceito de Europa unida questionando, também, o projeto institucional da União Européia. Você não ficou surpreendido pela dinâmica desse fenômeno?

 Osvaldo Coggiola: “Todo o mundo ficou surpreendido porque a União Européia era um projeto que se afirmou logo depois o fim do bloco socialista, em 1991, anexando pacificamente alguns estados que integravam o Pato de Varsóvia, além de espalhar sua influência em todas as nações da ex-URSS. É bom lembrar que a União Européia se apresentava com um rico mercado interno de 500 milhões de consumidores e uma estrutura política e institucional cuja principal novidade era a diversidade política e pluri-nacional. Um novo bloco capitalista que, em termos estratégicos, havia contribuído bastante em derrotar o bloco dos paises socialistas. Características que reforçavam sua estabilidade econômica.

Agora temos outra surpresa, pois a União Européia que foi o maior projeto do capitalismo, em nível mundial, hoje, em função da crise econômica está vivendo um processo de decomposição cujas imediatas conseqüências são os sinais de uma forte e longa recessão.”

Brasil De Fato —  A introdução do Euro e a criação da BCE (Banco Central Europeu) foram o símbolo da magnitude da União Européia, tanto que Saddam Hussein e tantos outros governos do Terceiro Mundo haviam começado a trocar suas reservas em dólares, além de exigir que os pagamentos das matérias primas fossem em Euro. Como explica que, hoje, em muitos países  europeus haja quem considera o Euro e a BCE a causa principal da crise do projeto institucional da União Européia?

 Osvaldo Coggiola: “ Quando a União Européia atingiu seu o nível de novo bloco capitalista com uma economia industrial pujante e uma moeda muito mais forte que o dólar houve a impressão de que esse novo bloco veio para substituir os Estado Unidos na liderança do mundo capitalista. Porém,  em termos políticos, isso não  aconteceu e no seu lugar, após os primeiros vinte anos reparamos que o processo de desagregação começou a se manifestar em muitas regiões da União Européia como resposta para romper as rígidas regras da união monetária que salvaguardam a existência do Euro.”

Brasil De Fato — E quais  são os tempos desse processo de desagregação?

 Osvaldo Coggiola: “  É evidente que não teremos uma explosão estelar mas, sim, haverá o que estamos vivendo hoje, isto é um fenômeno de gradual desagregação do projeto europeu a  partir do contexto social para depois  atingir, as estruturas políticas. Um processo que a Grécia está vivendo do momento que somente com a saída da União Européia o governo grego poderia livrar-se das rígidas regras de política monetária do Euro e, assim, voltar a antiga moeda nacional, a dracma. Somente fora do Euro o governo grego pode desvalorizar sua moeda quanto for necessário para transformar a Grécia em uma potência micro-exportadora de  serviços e produtos manifaturados.  É também verdade que com  o retorno à dracma e a retomada soberania monetária o governo poderia, de fato, acertar o ajuste da  economia, mas os trabalhadores pagarão um preço enorme porque  seus salários serão os mais inflacionados.”

Brasil De Fato — Em todas as manifestações contra a crise realizadas nos países da União Européia o vilão foi  sempre a Alemanha. Por qual motivo a Alemanha promove o crescimento na sua economia e, depois, no Parlamento Europeu exige políticas recessivas para os países europeus que estão em crise?

 Osvaldo Coggiola: “ As manifestações dos jovens  e dos desempregados, bem como as greves gerais que as  centrais sindicais promoveram na Espanha, Portugal, França, Bélgica, Irlanda, Itália e sobretudo na Grécia visam denunciar a postura da política recessiva do bloco europeu, cujo coração e  cérebro são representados unicamente pelo governo da Alemanha e seu Banco Central. Agora, para  salvar os bancos  alemães – que  são os que mais se apoderaram dos títulos soberanos da divida pública dos outros  estados  europeus – e para dar continuidade ao expansionismo industrial alemã, Ângela Merker não tem outra saída que exigir aos outros governos  europeus mais cortes nos seus orçamentos juntamente. Em segundo lugar a Alemanha e  a BCE exigem que o pagamento das dividas seja garantido com os capitais que originariamente deveriam financiar os investimentos infra-estruturais. É nessas condições de crise que a Alemanha se confirma como o único grande centro econômico eficiente do bloco europeu. De forma que, em termos político, é o governo da Alemanha que começa  a ditar regras para os países da União Européia transformando-se no verdadeiro dominador do bloco europeu. Uma preponderância que em termos geo-estratégicos é muito complexa e até perigosa porque evidencia  certas tendências da Alemanha que levam a tratar as nações em crise como seus protetorados.”

Brasil De Fato — Nessa situação os governo da direita européia  se transformam em meros serventes do mercado e  da BCE perdendo seu original papel nacionalista. Quais as conseqüências?

 

Osvaldo Coggiola: “ Sem duvida isso tudo alimenta a decomposição da direita na Europa e o exemplo mais vibrante é a crise dissolvente do partido de Berlusconi, o PDL. De fato, o principal partido da  direita italiana está sofrendo uma grave crise política porque lhe faltam os conteúdos ideológicos, do momento que o agravar-se da crise econômica na realidade é um fenômeno de crise recessiva provocada pelo próprio bloco capitalista que eles tanto apóiam. Por isso, e não há mais dúvida, todos os partidos da direita européia entraram nesse processo, gradual,mas também muito dinâmico de decomposição ideológica e também política.”.

Brasil De Fato — Também os partidos social-democratas e os socialistas reformistas que apoiaram os projetos neoliberais sofreram pesadas derrotas e seus eleitores continuam diminuindo. Acha que nunca mais teremos maiorias e governos como os de Mitterrand, Willy Brandt ou Olaf Palme?

Osvaldo Coggiola: “  É evidente que essa crise tem raízes mais profundas das que já apontei e que, por isso, abrangem também os partidos da dita social-democracia e os socialistas reformistas que, sobretudo nos anos oitenta integraram o poder do estado capitalista que  se  serviu deles para  atrair na área do poder também partidos da esquerda comunista. Foi o que  aconteceu na França com o governo de François Mitterrand onde o Partido Comunista Francês (PCF) ocupava importantes pastas. Hoje, nas últimas  eleições o PCF não consegui alcançar nem o 3% e por  absurdo, em um país como a França os comunistas do PCF foram superados pelos trotskistas! Na Espanha o PSOE foi facilmente derrotado porque amplas faixas de seus eleitores não foram votar por considerar o PSOE responsável da crise.

Portanto todos esses partidos que ocupam a área do centro-esquerda entraram em decadência pelo simples fato de ter acreditado que o processo de acumulação nos países da União Européia continuaria estável e, assim continuar a representar nos parlamentos as camadas sociais que se beneficiavam da estabilidade.  Porém quando esse cenário se  inverteu com a ruptura da estabilidade e o avanço de uma grande crise social, esses partidos, social-democratas, socialistas-reformistas, euro-comunistas amargaram o sabor das derrotas, da decadência e sobretudo da anti-política de que o  exemplo mais evidente é o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo na Itália.”

Brasil De Fato — Você acredita que para  além dos grupos da anti-política e os partidos da esquerda organizada em decadência há uma outra esquerda em formação que está surgindo das cinzas históricas da esquerda comunista e também das cinza do movimentismo pacifista, altermondista, ambientalista?

Osvaldo Coggiola: “  Quando o processo de acumulação capitalista – que se pensava não ser eterno mas que deveria durar ainda por um longo período nas nossa história – entrou em crise a partir de 2006, houve explosões  sociais a quem a esquerda organizada não soube dar uma resposta política e organizativa adequada. Não soube transformar essas explosões em um projeto alternativo à crise. Os  exemplos mais  claro disso tudo os  encontramos na Grécia e na Espanha onde houve autênticas rebeliões populares contra a crise profunda que, se diluíram no tempo porque a esquerda organizada não conseguiu construir uma alternativa.

Consequentemente, na Espanha o movimento “Os Indignados” começou a  questionar todos os partidos políticos, inclusive os da esquerda misturando a  anti-política com a  alternativa. Criou-se um vaquo  e nas eleições de 2011 a direita ganhou com muita facilidade. Na Grécia surgiu o movimento “Siriza” que dizia querer reunificar a esquerda popular, porém a esquerda organizada, isto é os  comunistas do PKK  permaneceram fora desse movimento. Mesmo assim o “Siriza, apesar de ser  praticamente improvisado, quase foi majoritário nas  eleições onde não quis formar uma frente popular com os  comunistas do PKK.

Isso tudo significa que, na Europa estamos em um período de profunda e complexa transição política que abrange, antes de tudo a esquerda organizada e os movimentos.  Uma transição que vai definindo os conteúdos de suas propostas políticas e organizativas em conseqüência dos fenômenos que a crise do bloco europeu irá produzir em cada país”.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.

Desindustrialização, desemprego e pobreza assombram a Itália

https://i2.wp.com/italiadallestero.info/wp-content/uploads/2011/10/Screen-shot-2011-10-30-at-12.23.47-608x250.pngEscrito por Achille Lollo, de Roma, para Correio da Cidadania – São Paulo/Brasil aos 10/09/2013

Para os operários da Firem de Modena, da Dometic de Forli, da Hydronic-Lift de Milão, e de outras vinte e duas pequenas fábricas metalúrgicas espalhadas no norte da Itália, o fim das férias do verão revelou uma trágica realidade: os patrões, na calada da noite, mandaram desmontar os equipamentos para encaixotá-los com destino à China, Polônia, Sérvia, Eslovênia, Marrocos e Vietnã. Países onde o custo da mão-de-obra é quatro vezes menor que a italiana.

A maior parte das fábricas italianas que optaram por volatilizar seus equipamentos é filial de multinacionais européias que estão à beira da falência, por causa da retração de seus produtos no mercado italiano, ou são pequenas indústrias que, desde 2010, nunca foram pagas pelas prefeituras, os governos regionais e as entidades governamentais com quem assinaram contratos. Além disso, são ameaçadas de “apreensão judicial” pela Agência das Entradas (receita italiana) por não terem pagado os impostos.

Na Itália, o afugentamento das indústrias é uma consequência negativa do modelo industrial que foi imposto, primeiro, pelos governos da Democracia Cristã e, depois, legitimado, durante uma década, pela direita chefiada por Silvio Berlusconi. De fato, a primeira onda de desindustrialização aconteceu no Sul e no Centro-Sul da Itália, entre 1992 e 2003, quando as máfias (Cosa Nostra na Sicília, N’Drangueta na Calábria e Camorra na Campânia) multiplicaram seus tentáculos no sistema bancário e na administração pública.

A segunda, realizada a partir de 2008, foi precedida pela fuga dos capitais, que, segundo as estimativas da polícia financeira, chegou a 610 milhões de euros (2,5 bilhões de reais). Capitais que na sua maioria foram depositados nos paraísos fiscais das ilhas Cayman, ilhas Virgens, Jersey, Liechtenstein, Monte Carlo, Bahamas e Qatar, para financiar operações financeiras especulativas.

Um contexto que se tornou mais degenerativo quando a oposição questionou o governo Berlusconi por tentar encobrir as escandalosas falências do grupo Parmalat e do Banco de Roma, entre outras, e quando a revista Espresso veiculou uma reportagem sobre os negócios obscuros e as propriedades adquiridas pelo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, e o presidente do Parlamento, Giorgio Fini, nas Ilhas Virgens e em Monte Carlo. Exemplos que incentivaram ainda mais a exportação clandestina de capitais e, sobretudo, a corrupção e a fraudação da receita.

Pobreza absoluta e relativa

Damiano Zecchinato, prefeito de Vigonovo – pequena cidade da região Veneto, com apenas 10.078 moradores (3.875 famílias) –, decidiu aliviar a pobreza absoluta na sua cidade, informando os gerentes de supermercados e de lojas de alimentação que a prefeitura de Vigonovo pagaria os alimentos roubados pelos velhos, os jovens e os estrangeiros que os furtavam por não terem nada a comer. A iniciativa do prefeito Zecchinato escandalizou grande parte da mídia, que o chamou de “oportunista alpinista midiático”, mas conseguiu, finalmente, visualizar uma faceta da crise socioeconômica que hoje – mesmo se o governo tenta dissimular – apresenta sinais evidentes do prisma da fome na Itália.

Segundo as estatísticas do ISTAT (Sistema Estatístico Nacional), em janeiro de 2013, a Itália tinha uma população de 59.685.227 pessoas, das quais 4.300.760 (7,4%) de nacionalidade estrangeira. Dessas, hoje, 1.725.766 (6,8% das famílias) vivem em “pobreza absoluta”, tendo uma renda mensal que não excede os 400,00 euros (1.150 reais), enquanto 3.232.564 pessoas (12,7% das famílias) vivem em “pobreza relativa”, desfrutando de uma renda mensal de no máximo 950 euros (2.650 reais). Se considerarmos que um aluguel de “casa popular” (cozinha, um quarto e uma sala) no subúrbio periférico de Roma ou de Milão não se encontra por menos de 400 euros (1.150 reais); que uma passagem metro/ônibus custa 1,50 euro (4,5 reais); que um quilo de carne bovina de segunda qualidade custa 10 euros (35 reais); e que a gasolina subiu até 1,95 euro o litro (5,60 reais), é evidente que as famílias de operários ou de funcionários públicos com dois ou três filhos, mesmo com um salário de 1200 euros, vivem na “pobreza relativa”, à causa do alto custo de vida que penaliza, sobretudo, os trabalhadores.

É necessário dizer que em 2003 havia poucos milhares de indivíduos considerados “indigentes”. Porém, o crescimento da pobreza absoluta se deu com a subida do desemprego, que no setor privado foi violenta, sobretudo a partir de 2009. De fato, em julho de 2013 havia 22.509.000 trabalhadores com carteira assinada. Nesse período, 433.000 trabalhadores (1,9%) foram desempregados e nenhum deles foi reintegrado no trabalho fabril. Por isso, o exército dos desempregados chegou a 3.076.430 e 39,5% desse contingente é formado por jovens (homens e mulheres) entre 18 e 30 anos. Além disso, as estatísticas oficiais não avaliam mais a categoria dos chamados “desempregados crônicos”, formada pelos trabalhadores ou funcionários considerados “velhos”, por estarem entre os 50 e 62 anos, e aqueles que, apesar de estarem na faixa etária dos 40, não procuram mais trabalho.

Desempregados que com mais frequência buscam uma ocupação na economia ‘submersa’, para trabalharem ao lado dos imigrados estrangeiros (inclusive os clandestinos), sem nenhuma garantia contratual e com salários de no máximo 500 euros. Uma situação que testemunha de forma dramática como as leis dos mercados e a lógica política dos governos neoliberais barbarizaram o mundo do trabalho, empurrando grande parte da sociedade italiana para os limites da indigência e da miséria. De fato, o que mais cresceu nos últimos três anos foi a economia submersa e a economia ilegal, ambas monitoradas pelos círculos mafiosos que, hoje, controlam a maior parte dos subúrbios e das periferias das grandes cidades italianas.

Um cenário inquietante que obriga a classe política italiana a se tornar cada vez mais “europeísta”, isto é, mais dependente da política econômica ditada pela União Europeia e mais atrelada aos programas financeiros da Troika (Banco Central Europeu, FMI, Banco Mundial). Por isso, o governo do reformista Enrico Letta (PD), depois de ter anulado a taxa IMU sobre todo tipo de residências (inclusive as mansões e os palacetes dos ricos), para garantir o apoio do PDL de Berlusconi e dos centristas de Mario Monti, deve, urgentemente, encontrar 9,2 bilhões de euros e, assim, evitar o default.

Diante desse problema, o “democrata” Giampiero D’Alia, ministro da Administração Pública, teve a brilhante idéia de “desempregar” 108.000 funcionários públicos e, consequentemente, não renovar os contratos temporários de 150.000 profissionais, que na sua maioria trabalham na saúde e na educação. Uma solução que, em Bruxelas, será ovacionada por Angela Merkel e David Cameron, mas que ampliará ainda mais o cenário da pobreza e das diferenças sociais na Itália.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália, editor do programa de TV “Quadrante Informativo” e colunista do Correio da Cidadania.

Lucio Dalla: o artista que musicou a sociedade italiana

https://i1.wp.com/images.vanityfair.it/imgs/galleries/news/orizzontale/002718/8-lucio-dalla-3168549_650x0.jpgLucio Dalla morreu aos 68 anos, em Montreux (Suíça), quinta etapa da turnê européia que devia concluir-se em Berlim, na Alemanha, com um grande concerto para celebrar seus 50 anos de sucessos musicais. Morreu um poeta e um músico que foi o ídolo de três gerações. Do 68 aos anos 90, Lucio Dalla foi a ícone da musica beat, depois do pop e por último da musica romântica sempre mantendo uma indiscutível originalidade no textos e nos arranjos musicais.

Achille Lollo (ROMA) — Grande amigo de Chico Buarte e da mulher Marietta Severo, que hospedou na sua casa em Roma, quando o casal escolheu o caminho do exílio no lugar de se dobrar a censura do regime militar, Lucio Dalla tinha uma grande paixão pelo Brasil. Aliás, esta paixão nasceu primeiro no musico, saxofonista e clarinetista da jazz-band Rheno Dixieland, que, em 1962, escutou Stan Ghez tocar com seu saxofone barítono, as músicas de Tom Jobim e, sobretudo a “bossa nova” de Baden Powel.

Um amor que, depois, desabrochou em 1995 quando ao editar o CD “A Modo Mio” introduziu o arranjo da coluna sonora da inesquecível “Cidade Maravilhosa” no “Bônus Track e depois realizou uma mixagem sonora com as canções “Felicità e O que é o que é”.

Um músico excepcional

Conheci Lucio Dalla em 1964 quando ele deixou Bolonha e sua jazz-band Rheno Dixeland para vir tocar em Roma com o grupo “I Flippers”, que depois passou a ser a banda de Edoardo Vianello, quando este artista lançou na Itália a moda do Halli Galli com o disco “I Watussi”. Este foi o período mais sofrido por Lucio Dalla porque ele devia desdobrar-se tocando musicas comerciais para sobreviver para depois cair nas famosas noites romanas das experimentação musical do Folkstdio, do Beat Studio e de tantas outras trincheiras do jazz, do blues e da nova música italiana localizadas nos bairros boêmios de Trastevere e de Campo de Fiori.

Quando não devia tocar com Edoardo Vianello, pouco antes da meia noite ele chegava com seu clarinete, as vezes levava o saxofone contralto, mas o clarinete era seu preferido e começava a tocar nas chamadas “noites de improvisação”, sobretudo com o saxofonista tenor Schifano que era o jazz-man da alternativa cultural romana.

Diferentemente de muitos músicos que, em 1964, se adaptaram aos padrões comerciais das gravadoras, Lucio Dalla sempre interpretou um “sound” original que era totalmente diferente do “mel discográfico” que a RCA, a Ricordi, a Decca e as outras grandes gravadoras italianas ofereciam aos jovens com a cumplicidade da RAI. Aliás, podemos dizer que a caretice da musica popular italiana, oficializada pelo Festival de San Remo favoreceu a afirmação de Lucio Dalla que logo conquistou o coração dos jovens por ser totalmente diferente dos outros. De fato em 1968, ele escreveu a canção “Paff Bum”, que a gravadora RCA a inscreveu no Festival juntamente com o grupo inglês The Yardbirds”, órfão de Eric Clapton que havia criado o famoso trio “The Crim” com Jack Bruce e Ginger Baker.

Na realidade os managers da RCA esperavam que o contato com os Yardbirds – que na época alimentava o top do rock inglês juntamente aos Beatles, Rolly Stones, Kings, Manfred Man e Animals – influenciasse Lucio Dalla neste gênero de música e assim ocupar uma importante fatia de mercado. Porém Lucio Dalla não caiu na rede dos discográficos e continuou seu caminhou começando a tornar cada vez mais sofisticadas suas músicas e, sobretudo os textos. Uma característica logo imortalizou Lucio como o novo poeta da canção italiana.

Foi assim que em 1971 e depois em 1972 Lucio Dalla apresentou ao Festival de San Remo duas canções, que, ainda hoje, são consideradas a ícone da canção popular italiana culta. Duas canções – Piazza Grande e 04/03/1943, esta mais conhecida por “Gesú Bambino” – que bateram de frente com o moralismo da sociedade italiana e que oferecem aos jovens uma melodia de novo tipo com palavras que é difícil esquecer.

Por outro lado foi o conservadorismo dos bispos do Vaticano que, sem querer, contribuiu a tornar Lucio Dalla um artista conhecido pela maioria dos italianos, uma vez que a Igreja católica iniciou uma campanha para censurar a canção 04/03/1943. Assim ao conseguir, por via judicial, que a gravadora retirasse a palavra “Gesú Bambino” da canção, fez com que o disco de Dalla vendesse muito mais cópias do previsto. Somente depois de quase vinte anos foi permitida que Lucio Dalla gravasse a versão original.

É bom lembrar que o texto da canção “04/03/1943” falava de uma menina de 16 anos que durante a segunda guerra mundial fez amor com um soldado das tropas aliadas “…sem saber o nome e o país dele…” que haviam desembarcado na Itália para derrotar o fascismo. Como em todas as guerra a garota, para alimentar seu filhinho, virou garota de apontamentos na taberna do porto, criando o filhinho naquele ambiente com o sobrenome de “Gesú Bambino”. Ao crescer e gostando de bebida e de putas o garoto passou a ser uma personagem do porto com o nome de “Gesú Bambino”. Canção que, depois foi imortalizada no Brasil por Chico Buarque e na França por Dalidá.

Caruso

Parece incrível mas em quase 30 anos de atividade, as musicas e os textos que Lucio Dalla escreveu são sempre diferentes. Não há repetição, mesmo quando na década de oitenta chegou a gravar um LP (Disco Long Plain com 8/10 canções) a cada ano e meia dúzia de discos single. Além disso em todos os “LP” Dalla grava uma grande diversificação de estilos musicais e de arranjos sofisticados, quase como se o disco fosse a apresentação dos vários estados de animo do próprio autor. Músicas e palavras, que retratam pessoas e momentos que são a cara da sociedade italiana logo após a crise econômica de 1969, ou que entrava na noite dos anos de chumbo.

É, portanto, na dureza dos anos oitenta que Lucio Dalla vai celebrar a vida do cantor de opera italiano, Enrico Caruso, que emigrou e morreu nos Estados Unidos sonhando sempre de voltar em Nápoles. Uma canção que vendeu nove milhões de discos e que mereceu a atenção dos tenores Luciano Pavarotti e Andréa Bocelli do momento que a harmonia da canção “Caruso” quase que se parece com as harmonias dos dramas líricos da opera italiana.

“Caruso” foi também a canção que afirmou Lucio Dalla no mundo inteiro e que, ainda hoje, é lembrada e conhecida com o título “Te voio bene assai”.

Dalla companheiro

Em todas as reprises, programas especiais e comentários realizados logo após sua morte e durante uma dezena de dias pelas televisões italianas, nenhuma delas disse que Lucio Dalla era de esquerda. Era, sim um companheiro dos nossos. Não era um burguês. Não era um artista que renegava seu passado, suas amizades, suas opções políticas, sua cidade, sua cultura.

Quando esteve no Rio de Janeiro em 1995, antes de gravar a entrevista ele quis passear pelo centro de Rio e ao chegar diante do Diretório Regional do PT, no Largo da Sardinha, onde as bandeiras vermelhas faziam resplender a estrela a cinco pontas, ficou quase encantado. Depois ao ver a banquinha da querida Lucilda que vendia as estrelinhas do PT em todas as cores e formatos, com os olhos todos arregalados e acentuando o calão bolonhês disse: “Ué vocês viram,.. aqui vendem as estrelinhas vermelhas como se fossem balas. Na Itália se você desenha somente uma estrela é logo preso! Vou comprar vinte para distribuí-las todas em Bolonha!...” De fato, feliz como uma criança, comprou todas as estrelinhas mais os outros buttons e broches do PT e do MST que estavam na banquinha.

Por ser um jovem do 68, originário de Bolonha, e portanto criado na cultura política do PCI (Partido Comunista Italiano) Lucio Dalla teve certa dificuldade em se reconhecer com a Nova Esquerda, no sentido de que mesmo apoiando-a, não queria a ruptura com o PCI. Porém Dalla cortou definitivamente com o PCI quando o partido de Berlinguer largou sua história para entrar no modernismo do liberalismo ou melhor do social-neoliberalismo. Foi, então que Lucio Dalla, em plena década de noventa começou a dialogar com setores progressistas da comunidade franciscana que ao comentar sua morte escreveram em sua revista “…Morreu Lucio Dalla, dor e tristeza invadiram a comunidade franciscana do convento de Assisi pelo repentino desaparecimento do cantor, músico e compositor de Deus”.

O cachorrinho Alfredo

Esta é, a meu ver, o poema que Dalla musicou olhando a Itália por dentro, além de analisar o que estava sendo feito para este país ser cada da vez mais sofrido pelas pessoas “não bem-sucedidas”.

Entre as casas e os prédios de uma estrada no inverno

Vê-se uma estrela assim linda e violenta que deveria ter vergonha.

Televisores e fogões assim iguais como os dentes da boca

De alguém que veio do centro a procura de um drama por farejar.

O cachorrinho Alfredo, humilhado e alvejado, com os dentes de lobo traído

Pensa um bocado e depois sobe.

Trata-se de um jovem ônibus de aparência social

Com passagem gratuita de umas prefeitura nada mal.

Nem o Natal é uma noite normal

Com os olhos fixando o chão

A gente prepara à guerra.

Há guerra nas avenidas do centro onde o vento é diferente

São diferentes os olores para quem vem de fora.

Uma grande faixa com um escudo e uma cruz e uma estrela cadente

Fazem publicidade de uma dieta alimentar

Pistola na mão a cidade se prepara

A queimar o dinheiro

E um dia mais amargo.

Na quarta paragem, sem nenhum motivo, desce decidido

O cachorrinho Alfredo se inventa um sorriso.

Sorri a uma brincadeira de uma mulher a um amigo que as 7 da noite depois de mais de dois anos

Saiu, há pouco da prisão.

O grupo chileno pintado na parede

Promete um show

Um golpe seguro.

A música andina, que saco mortal, são mais de três anos

Que se repete e é sempre igual

Enquanto o cachorrinho Alfredo canta de maneira diferente

A canção sem som de alguém que se perdeu

Cantada entre os dentes

De coração à coração.

Se a dele é uma maldade então eu vou apertá-la

E, assim, iremos muito longe.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente de Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.

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